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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
por Renato Lombardi 
São Paulo, 4 (AE) - Algemado com as mãos para trás, de camiseta branca, calça jeans com algumas manchas de sangue, meias brancas e descalço - os tênis, sem os cordões, foram deixados embaixo de uma cadeira -, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, de 24 anos, baiano de Salvador, aluno do 6.º ano da Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia, reclama para os policiais que a algema está apertando seus pulsos.
Sentado numa cadeira na pequena sala de reconhecimento nos fundos do 96.º Distrito Policial, do Brooklin, Meira disse que o sangue em suas roupas foi consequência do cortes pequenos no rosto e na orelha, provocados pelos socos e pontapés que recebeu de diversas pessoas. "A metralhadora caiu e aquela gente começou a bater querendo me matar." Com sotaque nordestino não-acentuado, 1,85 metro de altura, rosto com algumas espinhas, Meira disse que sempre viveu bem com os pais e o irmão.
Quer seguir a profissão do pai Deolindo Vanderlei Meira, oftalmologista e dono de uma clínica em Salvador. "Eu moro sozinho em São Paulo desde o começo da faculdade e minha mãe vem a São Paulo várias vezes por ano."
Dizendo ser viciado em cocaína há pouco mais de dois meses, introvertido e com dificuldade para fazer amigos e arranjar namoradas, Meira em nenhum momento chorou. "Eu sei que prejudiquei várias pessoas mas era uma coisa que precisava ser feita." Ele contou em detalhes como fez para comprar a submetralhadora de fabricação norte-americana. Disse que não deu todos os tiros do pente porque "não estava acostumado com a arma, que é semi-automática".
Indicou para a polícia o homem que vendeu a submetralhadora e de quem comprava também cocaína e crack. "É o Marcos (Marcos Paulo Almeida dos Santos) e o telefone dele está na agenda do meu celular", disse aos policiais.
Os professores de Meira alegam que ele não é cumpridor de seus compromissos tanto na faculdade de medicina, como no atendimento de ambulatório. Meira falou com exclusividade ao Grupo Estado. Repetiu diversas vezes: "Depois que passei a usar cocaína em grande quantidade entrei num estado de confusão." Estado - Quando você decidiu que atiraria numa platéia de um cinema? Mateus da Costa Meira - Eu sempre tive em minha mente que deveria matar alguém. Isso aumentou depois que parei de tomar os remédios para depressão, para meus problemas de perseguição. Passei a usar cocaína em grande quantidade. Não consigo parar. Estado - E a arma? Você já tinha uma automática. Por que encomendou a metralhadora? Meira - O Marcos me vendeu uma pistola ponto 40 de calibre 380. Comprei mais de 300 balas desse calibre mas não dava para atirar em muita gente. Fiz uns testes, ela falhou e pedi uma metralhadora. Tinha de ser pequena e com poder de fogo de muitos tiros. Estado - Quanto você pagou ? Meira - Paguei R$ 5.000,00. Dei notas de R$ 50,00 e de R$ 100 00. Juntei o dinheiro que meus pais mandaram da Bahia para minhas despesas e completei com uma parte que ganho com a pirataria de software, que faço já há algum tempo. Estado - Você poderia contar porque escolheu o MorumbiShopping se mora do outro lado da cidade? Meira - Tinha de ser longe. Estava esperando somente a entrega da metralhadora e fiquei excitado quando o Marcos ligou no fim da manhã dizendo que a encomenda estava na mão. Estado - Como você foi para o shopping? Meira - Peguei um táxi. Paguei R$ 30,00 pela corrida. Eu saí do meu apartamento porque achei que estavam me seguindo, ouvindo minhas conversas e fui para o hotel. Estado - Estavam seguindo você? Meira - Sim. Lá no meu apartamento eu ouvia vozes atrás da parede. Eu saía de casa e parecia que sempre tinha alguém atrás de mim. Resolvi sair, ir para o hotel no centro (na segunda-feira, hospedou-se no hotel Príncipe, na Avenida São João, ao lado do prédio do Mappin). Dali para o shopping foi mais fácil. Estado - E quando chegou de táxi no shopping você foi direto para o cinema? Meira - Não. Eram mais de 19h30. Fiquei andando. Eu queria entrar com a sessão pela metade. Estado - E a submetralhadora, onde estava? Meira - Carreguei numa bolsa. A arma é pequena. Entrei no cinema depois das 20h30. Escolhi o filme do Brad Pitt (Clube da Luta) porque é legal, tem cenas de violência que gosto e conta a história de um esquizofrênico. Assisti um pouco do filme e sai para fazer um teste com a metralhadora. Estado - Teste? Você não conhecia a submetralhadora? Meira - Não. Peguei no fim da tarde. Consegui colocar o estojo com as 40 balas no banheiro e dei um tiro no espelho. Estado - Você queria acertar sua imagem no espelho? Meira - Não. Eu tinha de atirar em algum lugar e decidi que seria no espelho. Estado - E depois, o que você fez? Meira - Voltei para a sala de projeção. Quando entrei peguei a metralhadora. Estava muito escuro. Fiquei pensando onde atirar. Pensei na platéia, na tela, depois no teto. Resolvi apertar o gatilho na direção da platéia. Estado - Como as pessoas reagiram com os tiros? Meira - Foram muitos gritos. Fiquei confuso. Continuei atirando. Eu apertava o gatilho e saía um tiro por vez. A arma é semi-automática achei que sairiam muitos tiros. (A submetralhadora é M-11, fabricada em 1989, em Atlanta, nos Estados Unidos). Estado - Como você se sente matando três pessoas e ferindo outras cinco? Meira - Continuo confuso. Estou atrapalhado. Não consigo nem chorar. Estado - Como você conheceu o traficante Marcos? Meira - Uma pessoa me apresentou. Ele era mecânico da Chrysler e passei a levar meu carro onde ele trabalhava. Fiz negócios com ele. Primeiro com a automática e depois com a metralhadora. Também comprei cocaína. Estado - Você pode explicar porque Marcos estava com um Fiat Palio que deveria estar com você? Meira - Eu tenho um automóvel Chrysler Neon e no sábado bati o carro em Campinas. O Marcos estava comigo. Deixei na concessionária e, por uma gentileza, eles me emprestaram o Palio. Como não sei dirigir carro mecânico, só automático, Marcos veio dirigindo e ficaria com o Fiat até meu carro sair da oficina. Estado - Daria para detalhar como é essa história de pirataria? Meira - Eu montei uma base boa de informática no meu apartamento da Rua Dona Veridiana. Copio software em CDs, reproduzo em vários aparelhos e vendo. Tenho laboratório. Me dá um bom dinheiro. Já fui pego por pirataria pelos policiais do 80.º Distrito (Vila Joaniza), mas não teve nem registro. Estado - E seus pais. Você não pensou neles? Meira - Nem pensei nisso. Me dou bem com eles. Minha mãe até me internou por causa dos meus problemas. Acho que ela é quem vai sofrer mais. Estado - Você já ficou internado em clínica de recuperação de drogados? Meira - Já. Foi na clínica Parque Julieta, em outubro. Fiquei nove dias. Saí de lá e não tomei mais os remédios.


