São Paulo, 4 (AE) - Seria mais uma sessão de cinema na vida de Júlio Maurício Zemattis não fosse a dúvida: o barulho do tiro era real ou fazia parte da fita? A resposta à pergunta feita pela amiga ficou sem resposta. Ele recebeu um tiro na cabeça e morreu no hospital.
"Tem um cara atirando lá do filme, Júlio", gritou a ex-namorada Andréa Cury Lang, que estava ao seu lado. "Quando percebi que não era ficção falei: abaixa." O economista de 28 anos, que faria aniversário no dia 20 de dezembro, não abaixou. Virou alvo fácil do atirador. Andréa levou um tiro na nádega direita. "Foi um massacre; só lembro que rastejei e fiquei perdida no meio do shopping, procurando por ele."
Júlio deixou para trás uma vida feliz e promissora, conforme as declarações dos parentes e amigos. Atualmente desempregado, o rapaz, diplomado em Economia pela Fundação Armando álvares Penteado (FAAP), fazia curso de extensão universitária em marketing, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Trabalhou na Dupont e, segundo informações de amigos, teria sido contratado recentemente pela Xerox, apesar de ainda não ter começado o serviço.
Era um típico jovem paulistano de classe média alta. Morava com os pais, um lituano e uma brasileira, em um sobrado na City Lapa, zona oeste da cidade.
Cinema, para ele, assim como os livros e a "turma", era um hobby. "Ia sempre", confirmou a amiga da família Patrícia Siqueira Brito, que acompanhou e auxiliou os parentes durante toda a manhã.
Até a hora do velório, que ocorreu às 15 horas no Cemitério da Lapa, a mãe, Thereza, e a irmã, Ana Lúcia, mal podiam falar, de tão chocadas.
Era um menino muito carinhoso, estudioso; não sei como vai ser minha vida sem ele", balbuciou a mãe, na saída do Instituto Médico-Legal. "Estou sem chão", disse. "A única coisa que podemos fazer é rezar por esse rapaz que cometeu essa insanidade." Chorando, lembrou que o pai, professor da Fundação Getúlio Vargas, Juosapas Zemattis, esteve internado havia 20 dias, por infarto. "Agora ele está trancado no quarto, não quer falar com ninguém."
Brutalidade - A dor que calou os pais revoltou a prima Márcia Dudienas, de 33 anos, que veio de Jaú, no interior, para acompanhar o velório. "Meus tios estão rezando pelo assassino, pedindo por essa criatura, mas não basta rezar", disse ela. "Uma coisa tão brutal e ninguém faz nada? Cadê a educação que os pais desse menino deveriam dar a ele?", esbravejou. "Sou mãe e peço para as outras mães educarem seus filhos; é o mínimo que as pessoas podem fazer."
Ela pedia, insistentemente, mais dignidade. ""Vamos viver uma vida mais digna, com mais amor, por Deus; eu também tenho depressão e não saio atirando em ninguém."
Mais emocionada estava a atual amiga Andrea, de 25 anos, que foi namorada de Júlio por quatro anos. Chegou ao velório nos braços de amigos, já que mal podia andar. Tinha acabado de sair do hospital. Levara um tiro na nádega.
"Lembro-me bem quando apertei a mão do Júlio, antes de tudo acontecer." Do amigo, guarda uma boa recordação. "Ele sempre viveu intensamente. "O enterro está previsto para amanhã
às 9 horas, em São Caetano do Sul.

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