São Paulo, 4 (AE) - Às 17 horas de hoje, o cortejo fúnebre de Fabiana Lobão de Freitas, de 25 anos, partiu em silêncio do velório do Cemitério Gethsêmani. Ontem, ela foi uma das vítimas do atirador que disparou contra espectadores de um cinema do MorumbiShopping. Pai, mãe e parentes não quiseram fazer comentários.
Amigos de trabalho e de escola, inconformados, choravam no meio-fio da calçada, com rosas brancas na mão. "Era uma moça muito tímida, delicada, de uma enorme empatia com as crianças", disse o educador Silvio Coutinho, que trabalhava com Fabiana.
A jornalista Valéria Baracat, amiga da família, falou em nome dos parentes de Fabiana. "Não foi só uma pessoa quem a assassinou ", disse, inconformada. "Quem vendeu a arma e as drogas a matou também." Formada também em psicologia, Valéria questionou o comportamento dos pais de Mateus da Costa Meira, o atirador. "Ele tem todos os traços anormais", comentou, com base nas notícias que ouviu nas rádios e leu nos jornais.
Fotografia - Passava das 20 horas de quarta-feira quando a estudante Juliana Lobão de Freitas, de 18 anos, recebeu um telefonema da irmã Fabiana, avisando que iria ao cinema com o namorado, Carlos Eduardo Oliveira Porto, e alguns amigos assistir ao filme "Clube da Luta". Foi a última vez que as duas se falaram. Pouco mais de duas horas depois, Fabiana estava morta.
requentar cinemas era um dos principais programas do casal, evangélico, que namorava havia sete anos. "Eles assistiam a filmes várias vezes por semana, por causa das histórias, do enredo e para observar a técnica e a iluminação", conta o advogado álvaro Benedito de Oliveira, pai de Carlos Eduardo. Segundo ele, o produtor de cinema já havia visto o filme e queria mostrar a fotografia de algumas cenas, que o tinham impressionado, aos colegas de trabalho e à namorada. "Cinema era uma paixão dos dois."
Pouco depois de ser internado, Carlos Eduardo, de 25 anos, proprietário da Produtora de Vídeo Toro, na Chácara Santo Antônio, contou à mãe, a professora primária Ana Carolina, que tudo pareceu ter acontecido de forma muito rápida, nos momentos que antecederam a tragédia.
Quando ouviu os tiros, imaginou que algo dentro do cinema estivesse desabando. "Ele me disse que quando se deu conta de que se tratava de disparos jogou-se no chão, sobre Fabiana, para protegê-la, mas talvez nesse momento ela já estivesse morta", disse Ana Carolina.
O estudante de direito Miguel Beltran Neto, de 20 anos, que assistia ao filme na cadeira ao lado de Fabiana, lembra-se de ter conversado rapidamente com ela, nos momentos que antecederam sua morte. "Quando estávamos no chão, ela me pediu para sair rapidamente, assim que pudesse." E foi exatamente o que ele fez, pouco depois. Ao deixar o cinema, entretanto, viu que suas calças estavam sujas de sangue e chegou a imaginar que tivesse sido ferido. "Quando notei que estava bem, percebi que o sangue era da moça ao meu lado e voltei para ver se ela precisava de ajuda", lembra. Foi então que ele encontrou Porto, também ferido, tentando arrastar Fabiana para fora da sala.
Durante a madrugada, Porto transferido para o Hospital Duprat, onde sofreu duas cirurgias. Segundo seu pai, ele teve músculos e ligamentos seccionados no calcanhar e braço direitos. Embora não corra risco de morte, ele encontrava-se muito abalado emocionalmente e era mantido sedado na tarde de ontem.
Formada em dois cursos superiores, turismo e letras, com especialização em francês, Fabiana estava terminando a licenciatura na Universidade de São Paulo (USP). Há seis anos trabalhava no projeto Museu, Educação e o Lúdico. Era bolsista do Museu de Arte Contemporânea (MAC) e dedicava-se a criar brinquedos com base em trabalhos de artistas famosos, em papel ou madeira, para que as crianças que visitam o museu entendessem melhor os quadros. Ela tinha planos de, no próximo ano, estudar fotografia com o noivo na Bélgica ou França, durante três meses.
"Ah, eu sempre brincava com ela, dizia que queria que meus netos tivessem olhos azuis como os dela", desabafou a sogra, Ana Carolina. "Fico pensando na tristeza da família desse assassino." "Sonho ruim" - Fabiana vivia com o pai, o geólogo Carlos Geraldo de Freitas, de 53 anos, funcionário do Instituto de Pesquisa e Tecnologia (IPT), e a irmã Juliana, de 18 anos, no Jardim Marajoara, na zona sul. Perplexo e profundamente abatido após reconhecer o corpo da filha, na madrugada de hoje, Freitas murmurava baixinho pelos corredores do Pronto-Socorro de Santo Amaro: "Parece um sonho ruim."
A mãe, a pedagoga Selma, tentava consolar os dois filhos
meios-irmãos de Fabiana: Ariane, de 13 anos e Carlos Eduardo, de 15. "É inacreditável, ela era uma menina tão doce, esforçada
cheia de planos", comentou o padrasto de Fabiana, Carlos Torres, segundo marido de Selma. "Como ninguém percebeu que aquele rapaz tinha problemas mentais sérios?"





