São Paulo, 4 (AE) - O estudante de Medicina Mateus da Costa Meira tem fama de estranho entre os vizinhos e colegas de faculdade. Sempre calado e sozinho, evitava conversas e dificilmente cumprimentava alguém. No prédio onde morava, os porteiros se espantavam por ele não atender o interfone. Na biblioteca central da Santa Casa de Misericórdia, chamou a atenção de funcionárias por nunca sorrir.
As pessoas mais próximas sabiam que seu sonho era ser oftalmologista, como o pai. Mas saber sobre sua vida era difícil. Nas férias, o estudante costumava visitar a família em Salvador, mas ali também tinha poucos amigos. A origem rendeu-lhe o apelido de Baiano na faculdade e o sotaque trouxe algumas brincadeiras.
Apesar de ter participado de uma competição esportiva como triatleta na faculdade e de gostar de correr, ele nunca treinava com os colegas. Tampouco era visto no Toca, um bar onde os estudantes da Santa Casa costumam reunir-se. Mas tinha notas suficientes para formar-se médico no fim deste mês. Seu currículo escolar não foi dos mais brilhantes nem dos piores. "Ele era um aluno regular, que nunca colecionou notas máximas ou mínimas e repetiu o quarto ano", disse o professor de genética médica Décio Cassiani Altimari, que lhe deu aulas em 1995. "Era o tipo de estudante do qual a gente não guarda a turma na memória nem lembra o nome quando encontra na rua."
Rejeição - Entre os colegas, foi algumas vezes hostilizado por seus modos. "Muita gente aqui o rejeitava", disse a estudante Tatiana Regina Criscuolo, de 30 anos. Também sextanista, ela dividia a mesa de faculdade com Meira. "Aproximei-me dele, porque repetimos o mesmo ano", contou ela. "No início, eu dizia bom dia e ele não respondia, mas depois passamos a conversar mais, comentar sobre aulas e provas; ele estava muito melhor nos últimos tempos."
De acordo com outra colega, Vanessa Sieiro, de 25 anos, Meira é muito capaz. "Ele entende de computador e é inteligente", diz. "Alguns colegas contam histórias em que teria agredido professores verbalmente, mas lembro de um só caso e ele não foi o único a fazer isso."
Seu nome estava registrado no serviço de Retaguarda Emocional para Alunos de Medicina (Repam), que oferece apoio psicológico aos estudantes. Motivo: dificuldades em estabelecer boas relações com os pacientes e fazer plantões. Chamado para uma entrevista em abril, conversou com a psicóloga da Santa Casa
Patrícia Bellodi. "Minha impressão foi que se tratava de uma pessoa tranquila e com pensamento organizado, mas uma sessão de uma hora é insuficiente para chegar a um diagnóstico", explicou ela. Foram marcados novos encontros, mas o estudante não compareceu. No mês passado, a faculdade recebeu um atestado médico dizendo que Meira precisaria ficar 15 dias afastado. Não havia menção de uso de drogas em sua ficha.
O futuro acadêmico do estudante está agora nas mãos da Comissão de Apoio Psicopedagógico, criada pela Santa Casa. O relatório dos quatro membros da comissão deve sair amanhã. O diretor da faculdade, Ernani Geraldo Rolim, diz que todos na instituição estão chocados. "A faculdade vê o caso do mesmo modo que a sociedade, como uma agressão sem medida", afirmou. "Mas aberrações surgem em qualquer profissão, não são privilégio dos médicos." Interfone - No edifício onde vivia, os contatos com Meira eram difíceis. "Todo mundo aqui dizia que ele não batia bem", lembrou o eletricista Paulo Donizete Feriance. "Mesmo estando em casa, nunca atendia o interfone, mas, uma hora depois, ligava para a portaria perguntando quem era."
Segundo Feriance, no mês passado, Meira teria cismado que estava sendo espionado. "Ele pediu uma escada e a chave da casa de gás, pois achava que o espião tinha se escondido lá."
A mania de perseguição envolvia todo mundo. Na semana retrasada, um funcionário foi impedido de trocar o reparo da descarga do banheiro do estudante. Há dois meses, o ajudante de serviços gerais Edvaldo Farias teve de interromper a limpeza do corredor em frente do apartamento de Meira. "Ele veio e me perguntou: porque você tá lavando isso, o que quer aqui?", relatou. "Esta vez e o dia em que ele jogou um monte de papéis pela janela onde se lia droga mata e a vida é uma droga foram os mais estranhos."
De acordo com vizinhos, o estudante ainda teria ameaçado um porteiro no ano passado por ter deixado o entregador de pizzas subir. "Na época pensamos em procurar a polícia, mas depois o pessoal achou melhor deixar para lá."
Visitas - Moradores do edifício também afirmam que o estudante costumava receber visitas "suspeitas". "Sempre vinham entregar caixas para ele, olhando de um lado para outro para ver se não estavam sendo observados; eram uns tipos bem esquisitos", revelou um dos vizinhos.
Nas reuniões do prédio, ele nunca foi visto e, segundo Feriance, que foi conselheiro do edifício, não pagava taxa de condomínio. "Era devedor, pois morava num apartamento que estava num processo de inventário."
O estudante também não chegou a pagar a conta do Hotel Príncipe, onde se hospedou um dia antes de descarregar a arma no cinema. "Não deu tempo de a gente saber nada dele", afirmou o gerente, que se recusou a dar o nome. "Ele dormiu aqui de terça para quarta, deixou o hotel de manhã e não é cliente usual."

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