São Paulo, 4 (AE) - Mateus da Costa Meira entrou no banheiro com a arma. Queria testá-la. Disparou contra o espelho. O barulho passou quase despercebido pela platéia. Saiu e parou na escada, ao lado da tela. Nas mãos, a submetralhadora de cerca de 30 centímetros de comprimento. Ficou quase 20 segundos parado e desceu vagarosamente os degraus, entrando no corredor lateral da sala como se procurasse um lugar para sentar. Parou na quinta fila de cadeiras. Levantou a arma e apertou o gatilho. Ninguém compreendeu o que estava ocorrendo. Os espectadores mais próximos abaixaram-se. Nenhum deles foi atingido. Meira, disparando um a um os tiros, varreu a sala da esquerda para a direita com as balas calibre 9 milímetros. As 40 pessoas que estavam no cinema agacharam-se, correram, atiraram-se umas em cima das outras em pânico e aos gritos. "Parecia uma cena de cinema", afirmou o publicitário Renato Lucena Fernandes de Mello, de 24 anos. As vítimas do assassino estavam todas sentadas no lado oposto da sala. "Três pessoas foram baleadas ao redor de mim por esse imbecil", afirmou o administrador de empresas Leonardo Adão Vidal, de 25 anos.
Após os primeiros tiros, Meira fez uma pausa. Para as testemunhas, parecia que ele havia recarregado a submetralhadora - a polícia não achou esse segundo pente. Segundos depois, os disparos recomeçaram, seguidos de um novo silêncio - a munição acabara. A maioria da platéia já havia saído. Alguns poucos permaneciam entre as poltronas. Dois correram até o assassino e o derrubaram no chão, dominando-o. Outros tentaram bater em Meira. O autor do crime não reagiu, não fez ofensas nem gritou quando foi contido. Desde que entrou no banheiro, tudo não demorou mais que três minutos. Pegadinha - O estudante de direito Miguel Beltran Neto, de 20 anos, no começo, pensou que o ataque era uma pegadinha feita com uma câmera oculta para um programa de televisão. "Uma mulher levou um tiro ao meu lado." Ela tentara sair de onde estava e o empurrara. "Não vi ela ser atingida, gemer, nada; ela ficou em silêncio."
Quando os tiros pararam, o estudante correu em direção do assassino. "Daí, vi sangue na minha calça." Ele pensou que sangrava, ergueu a calça e limpou a perna. Mas não estava ferido - o sangue era da mulher. Em vez de alcançar o atirador, voltou ao lugar. "Ela estava baleada e o namorado pedia socorro." Mas a ajuda demorou.
Demorou ainda para que as luzes fossem acesas, o filme, interrompido e a segurança chegasse. "Foi apavorante." Beltran Neto entrou na sala de projeção; não havia ninguém. Tentou acalmar as pessoas. "Fiz o que pude." O estudante, que cursa a Universidade Paulista (Unip), havia saído da escola para assistir sozinho ao filme "Clube da Luta". "Aquilo era um cinema, não um banco, que a qualquer momento podia ser assaltado; ali, ninguém esperava por isso."
Ao lado - Vidal, o administrador de empresas, havia ido ao cinema com a namorada. Já havia passado da metade do filme quando Meira deu o tiro no banheiro. "Esse imbecil não mirava em ninguém, pois não acertou ninguém perto dele."
Vidal estava no meio da sala, em direção ao fundo. Ao seu lado, um homem foi baleado. Ao lado deste, estava a namorada
alvejada na cabeça. Na sua frente, duas fileiras em direção da tela, um rapaz foi atingido na cabeça. "O sangue dele escorria até duas fileiras adiante." Era Júlio Maurício Zemattis. A bala acertou-lhe a testa e perfurou-lhe o crânio. A namorada do administrador de empresas abaixou-se e, quando os tiros cessaram, correu para fora da sala. "Estou aqui, hoje, por sorte." Vidal, que estava abaixado, levantou-se e viu a mulher baleada ao seu lado. "Comecei a chorar." Ele ajudou a deter Meira. "Eu, particularmente, fui para cima dele; depois que eu vi a mulher baleada e o marido revoltado, não consegui me conter."
Dominado - Um empurrão pelas costas e o joelho na cabeça. Assim o publicitário Mello ajudou a dominar Meira. Ele tinha ido assistir pela segunda vez ao filme "Clube da Luta". Estava com um amigo e ouviu um barulho vindo do banheiro. Era o primeiro tiro. "Eu não estava prestando muita atenção no filme."
Um funcionário do cinema correu para a frente da platéia. "Pensei que alguma coisa havia quebrado." Em seguida, Meira apareceu. "Eu olhei bem para ele." O assassino ficou parado ao lado da tela. Ele acompanhou todos os movimentos de Meira. Viu-o descer a escada e seguiu seus passos pelo corredor lateral. Viu-o parar, mas não percebeu quando os tiros começaram. Só viu faíscas, sentiu o cheiro de pólvora e só compreendeu o que acontecia quando ouviu as pessoas gritando, baleadas. O amigo, que ele havia convidado, puxou-o da cadeira e jogou-o no chão.
O publicitário diz que, primeiro, Meira atirou cerca de 20 vezes, parou um pouco e, depois, disparou outras 20. "Vi gente morrer na minha frente." Mello tem uma certeza: o assassino poderia ter matado muito mais gente se tivesse abaixado um pouco mais a submetralhadora - ele carregava a arma com o cano um pouco levantado. "Lembro de cada minuto, parece que foi uma eternidade."
Quando as balas terminaram, Mello levantou-se e foi em direção do atirador. Empurrou-o por trás e Meira caiu. Pôs o joelho na cabeça do assassino e um rapaz tirou-lhe a arma. Meira lhe dizia: "Sai de cima de mim, me larga". O publicitário deu-lhe uma joelhada, um chute e segurou-lhe por meio de uma chave de braço, mas o assassino não reagia nem gritava, só resmungava, baixinho, quase um sussurro: "Me larga, sai de cima de mim."

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