Brasília, 04 (AE) - As emissoras de televisão prometem concluir o código de ética com compromissos sobre a exibição de programas violentos até o fim de dezembro. Se cumprirem a promessa, o código sairá depois de mais de um ano de o secretário de Estado dos Direitos Humanos, José Gregori, ter iniciado negociações para acabar com o excesso de violência e de sexo nas telas, durante horários impróprios. O caso do estudante de medicina, Mateus da Costa Meira, que matou três e feriu cinco pessoas em um cinema no MorumbiShopping, em São Paulo, é um indício para Gregori de que se precisa tomar providências imediatas para prevenir a violência. Ele não deixa de considerar a coincidência entre o caso brasileiro e a série de atos terroristas nos Estados Unidos, mas está convencido da forma como a TV pode influir em certas mentes. "A TV tem influência no nosso País iletrado em que o livro não está ao alcance de todas as mãos", afirma, exigindo "clareza solar" na descoberta de como uma arma com tal poder mortífero foi parar nas mãos de uma pessoa que vinha "dando sinais visíveis de que estava fora da normalidade". Gregori reclama ainda de não ter sido aprovado projeto que limita a comercialização de armas no País. O projeto é de iniciativa do governo. "Tem grande lobby lá (Congresso) contra o projeto".
Gregori diz que o episódio serviu de lição e todos, principalmente os líderes da sociedade, devem refletir profundamente. Para ele, mostra também que não é falsa a briga para modificar a programação televisiva. Os representantes das emissoras atenderam a todas convocações de Gregori para reuniões em que se discutiram a programação televisiva, mas resistem a concluir o código. Selo violência - Enquanto o Executivo tenta vencer as resistências e criar um manual para orientar a produção e exibição de programas, o senador Romero Jucá (PFL-RR) já conseguiu aprovação no Senado de seu projeto que cria selo advertindo que o produto "incentiva a violência" e deve ser fixado na embalagem. O projeto que agora está tramitando na Câmara prevê o uso do selo para filmes e até para matéria publicada pela imprensa escrita.
Também deverá ser colocado em brinquedos, fogos de artíficio, roupas, filmes, revistas ou qualquer outro produto que "possa desenvolver atitudes de caráter nocivo ao comportamento social". "Na sociedade de hoje é bonito ser violento, chama atenção, ganha-se 15 minutos de fama", lamenta o senador, que é autor também de outro projeto que institui a cobrança de imposto sobre produtos indutores de violência, proposta ainda em apreciação pelo Senado. "A forma de restringir o consumo é taxar o produto", justifica Jucá, denunciando que há no País uma banalização da violência.
A presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ana Bock
concorda com o senador. Segundo ela, os filmes atuais mostram violência gratuita. Ela sustenta que os filmes seriam extremamente educativos e contribuiriam para formação do caráter da pessoa se eles apresentassem situações que levassem a compreensão do motivo daquela atitude. Ela afirma que não se devem proibir a exibição desse tipo de filme, porque sem o contato, é difícil para a pessoa estabelcer a diferença. "Pode-se compreender a violência sem aceitá-la", defende.
Ana diz que as pessoas deveriam raciocinar sobre o episódio do cinema e no que estão repetindo Mateus em seu cotidiano e de que forma estão ensinando a seus filhos a viver. "A sociedade banaliza a vida", adverte, lembrando os jovens de classe média que em Brasília atearam fogo no índio que dormia na parada de ônibus. A psicóloga se assustou com a naturalidade com que eles justificaram o crime: "a gente pensou que fosse um mendigo".
A presidente do CFP ressaltou que não conhecia o quadro clínico de Mateus. Mas a partir do caso, ela comenta ser importante não menosprezar os receios diante de um filho com problemas. "Nem sempre nos damos conta da gravidade", alerta aqueles que temem assumir que um parente está gravemente doente. Segundo ela, drogas também são como "fogo na pólvora" para aqueles predispostos a sofrerem doenças mentais.

mockup