Brasília, 03 (AE) - Os negros e os pardos, apesar de representarem quase a metade da população brasileira, só têm acesso a 19,5% dos financiamentos da agricultura familiar no Brasil, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, ao receber a pesquisa, hoje, anunciou que vai convidar lideranças de movimentos negros para ajudar a formular políticas públicas para acesso a financiamentos agrícolas.
O Ibase calcula também que 76 mil crianças de até dez anos estejam trabalhando e fora da escola, em Goiás, Bahia, Ceará, Rondônia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul, onde foi feita a pesquisa. O diretor do Ibase, Cândido Grzboswski, disse que a discriminação não está na essência do Pronaf, um programa que ele exalta a qualidade por inserir uma grande parcela da população rural na economia. Grzboswski, que ajudou a realizar a pesquisa, acredita que a discriminação aconteça na mesa do gerente de banco, quando um negro ou pardo vai pedir o financiamento da agricultura familiar.
"O gerente do banco não acredita que um negro tenha condições de pagar empréstimo", disse. "A cor da pele determina a qualidade do atendimento". A população que declara ser branca no País, onde se inserem 55% dos brasileiros, fica com a maioria do dinheiro, com 79% dos financiamentos agrícolas. A população "amarela" fica com 1% e outros 0,5% não responderam. Além dos beneficiários do Pronaf, a pesquisa também incluiu as pessoas que têm acesso ao Programa Nacional de Emprego e Renda (Proger).
Os oito Estados pesquisados representam juntos quase 80% dos financiamentos agrícolas e projetos de emprego do governo. Foram feitas 3.724 entrevistas com agricultores beneficiados com empréstimos do Pronaf, entre abril de 1.998 e abril deste ano. Pesquisa - Jungmann participou hoje de seminário no Centro de Estudos (Cesir) da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), onde discutiu a pesquisa com representantes de movimentos sociais, e disse que quer discutir políticas públicas com a Fundação Palmares e com todas as entidades e organizações não-governamentais que representam os negros.
O ministro disse que ainda não tem nenhuma idéia do que pode ser feito. Jungmann, no entanto, acredita que a discriminação aconteça antes mesmo do acesso ao crédito. Significa que negros e pardos não conseguem se inserir em todo o contexto sócio-econômico do País. "Como posso dar financiamento ao negro, se ele não está na terra?" Crianças - A pesquisa do Ibase constatou ainda que 118 mil crianças de até dez anos trabalham e estudam ao mesmo tempo, nestes oito Estados. Do total, 76 mil crianças estão trabalhando e não estudam. O Ministério de Política Fundiária estuda com a (Contag) uma forma de vincular os empréstimos à matrícula das crianças na escola.
O Ministério e a Contag, no entanto, querem mapear as áreas onde não há escolas e onde as crianças ajudam os pais sem necessariamente representar qualquer tipo de trabalho escravo. Raul Jungmann disse que não é o Pronaf "que motiva" o trabalho de crianças, mas que o programa pode contribuir para resolver o problema. A Contag está preocupada com "limitações" ao crédito agrícola com qualquer tipo de regra que possa surgir sem debate.
A partir de uma análise dos números dos oitos Estados, Cândido Grzboswski acredita que cerca de 150 mil crianças de até dez anos estejam trabalhando no campo, sem estudar. O coordenador do Pronaf, Ludgério Monteiro, disse que está ouvindo os movimentos sociais para tomar a decisão final, mas lembrou que cerca de 4,5 milhões de famílias atuam com a agricultura familiar no Brasil. "Se cada família tivesse uma criança trabalhando sem estudar, seriam 4,5 milhões de menores trabalhando", afirmou Ludgério.

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