PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Antônio José do Carmo e Eugênio Melloni 
Buritama, SP, 04 (AE) - A ausência de chuvas no Estado de São Paulo já baixou o nível das águas do Rio Tietê a ponto de tornar impraticável a navegação em alguns de seus trechos. Cinco grandes embarcações, com 6 mil toneladas de mercadorias, estão encalhadas a jusante da Usina Hidrelétrica de Nova Avanhandava, no município de Buritama, a 500 quilômetros da capital.
É a primeira vez que o transporte de grãos, óleo vegetal e combustíveis é interrompido por falta dágua, desde o início da operação da Hidrovia do Tietê, há seis anos. Com a interrupção da navegação no Tietê, cargas provenientes do Norte destinadas à exportação estão indo direto para o Porto de Paranaguá, por meio da Hidrovia do Rio Paraná que, por enquanto, não apresenta problemas de navegação, apesar de estar também com o nível 5 metros abaixo do normal.
Pedro Burim, dono da Transportadora Torque, que opera na hidrovia, disse hoje que havia dez dias vinha diminuindo a carga das barcaças para tentar manter os compromissos de tráfego entre São Simão (GO) e Anhembi (SP), numa distância aproximada de 800 quilômetros. Com capacidade de até 1.500 toneladas, as barcaças diminuíram a carga em 400 toneladas para ficar com calado inferior a 2 metros. Mesmo assim, as embarcações encalharam.
Crítico - O ponto mais crítico está na extremidade a montante do reservatório da Hidrelétrica de Três Irmãos. A poucos quilômetros da usina de Nova Avanhandava, antes de entrar na eclusa, o nível do lago em alguns pontos por onde passam as embarcações esteve inferior a 80 centímetros, quando o normal é acima de 5 metros. Mas, para o empresário Pedro Burim, algumas obras de drenagem podem resolver o problema no futuro, retirando bancos de areia.
Um comandante de embarcação, que não quis identificar-se, disse que o Rio Tietê ganhou correnteza com menor volume nos reservatórios e manter o curso dentro dos 40 metros sinalizados no leito do rio "é praticamente impossível". Todas as barcaças estão encalhadas fora do leito oficial de percurso porque, segundo os tripulantes, a correnteza e o vento os arrastaram para fora do caminho.
Alternativas - As empresas privadas e estaduais que dependem das águas do Tietê já estão tomando providências para solucionar o problema. A Companhia Energética de São Paulo (Cesp) está tentando elevar o nível das águas utilizando o reservatório da Hidrelétrica de Ilha Solteira, no Rio Paraná. O reservatório está ligado ao Tietê por um canal artificial de 9 quilômetros.
Mas até hoje o nível do rio havia subido menos de 40 centímetros. As tripulações das embarcações encalhadas acreditam que somente com 1,5 metro acima do atual nível será possível seguir viagem. De acordo com o secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, ainda hoje deveria ser ampliada a geração de energia elétrica da Hidrelétrica de Nova Avanhandava com o objetivo de aumentar a vazão de água para o ponto crítico. Arce disse, no entanto, ter conhecimento de apenas um barco encalhado
que estaria impedindo a passagem de outros.
"Até as chuvas começarem para valer, poderão acontecer novos problemas semelhantes", previu Arce.
Carlos Ribeiro, diretor de operações da Operadora Nacional do Sistema Elétrico (ONS) - entidade que administra a operação do sistema elétrico -, garante que no ponto de encalhe dos barcos as águas ainda estão 45 centímetros acima do nível mínimo de navegabilidade. "Esse encalhe pode ser atribuído a bancos de areia, um problema fácil de resolver", disse Ribeiro. Ele garantiu ainda que, apesar do baixo nível dos reservatórios de todo o Sudeste do País, a situação não oferece riscos para a geração de energia elétrica. "A situação é pior em outras bacias, como no Rio Grande", disse Ribeiro.
O diretor da ONS acrescentou que o aumento da operação das usinas hidrelétricas dispostas ao longo do Tietê (Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão, Nova Avanhandava, Três Irmãos) - medida que já estaria sendo tomada, de acordo com ele -, com a liberação de maior quantidade de água dos reservatórios em cascata, é viável e poderá elevar o nível no ponto do encalhe e resolver a situação. A Companhia de Geração de Energia Elétrica do Tietê, que arrematou as usinas do rio em recente leilão de privatização, não retornou às ligações da reportagem.


