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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Angela Bittencourt 
São Paulo, 04 - A Bolsa de São Paulo arrancou 4,96% ontem e o Ibovespa queimou seis meses do calendário. Cotado a 12.346 pontos, o índice retornou ao patamar de maio. A valorização nominal também foi a maior neste período e entrou num ranking muito específico, pois foi a nona vez, desde janeiro
que o índice que representa o Brasil no mercado internacional teve alta superior a 4%. Apesar do salto em valores nominais, em dólar, o Ibovespa ainda registra queda de cerca de 15% em relação a meados de maio. Portanto, ainda há espaço para correção ou atualização de preços. Mas, isto não significa dizer
que o fôlego dos compradores - incluindo estrangeiros - é prolongado.
Analistas consultados pela AE-Broadcast alertam para dois fatos que podem estar condicionando o movimento da bolsa neste início de último bimestre do ano: 1) a pressão exercida particularmente ontem por ordens de compra de investidores estrangeiros que deviam ser executadas no dia e exerceram pressão inequívoca sobre o índice e com impacto certeiro no volume negociado que por um triz não tocou R$ 1 bilhão; 2) a necessidade imposta pelo próprio mercado de melhor "precificar" as bolsas de valores ou ativos de renda variável, que não acompanharam o ajuste de prêmios no segmento de renda fixa - em reais ou em dólares, através dos títulos da dívida externa negociados em Nova York. Esses analistas ponderam que o "preço" do Brasil permaneceu desequilibrado - frente a mercados emergentes, sobretudo, Argentina - durante meses, apesar dos avanços confirmados. O governo brasileiro - exagerando ou não no expediente de receitas extraordinárias - vem cumprindo as metas fiscais negociadas com o FMI.
A meta de inflação traçada a partir da variação do IPCA, índice ao consumidor monitorado pelo IBGE, também deverá ser cumprida. Isto é, a meta oficial de inflação deve fechar 1999 na casa de 8%, mas se ficar um pouco abaixo ou um pouco acima deste percentual o governo não levará palmadas, porque a política de metas de inflação prevê uma banda de flutuação de dois pontos percentuais para cima ou para baixo da meta central de 8% neste ano; 6% em 2000; e 4% em 2001. Nas últimas três semanas, de fato
o diferencial entre os prêmios de risco ("spread over treasuries") dos "bradies" brasileiros e argentinos - negociados no mercado secundário em Nova York - diminuiu mais rapidamente; a adoção pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do "viés de baixa" para o juro primário (Over/Selic), na reunião de 6 de outubro, foi determinante para balizar reduções pequenas, mas persisten tes das taxas de juros; simultaneamente, medidas como liberação de compulsório bancário e corte de IOF foram adotadas na tentativa de viabilizar o aumento da oferta de crédito na economia; no mercado de câmbio, o Banco Central primeiro fechou a cara e, depois, fez a coisa certa e voltou a assumir a posição que lhe cabe - de defesa do real ou contra movimentos especulativos com a taxa de câmbio; com um empurrão do FMI, que concordou em reduzir o piso das reservas internacionais líquidas que consta do acordo financeiro internacional, o BC reforçou o arsenal contra a especulação; e, aumentou consideravelmente o contingente de aliados, ao liberar as posições "vendidas" em câmbio no sistema bancário.
Ontem, o dólar fechou a R$ 1,9410 - cotação mais baixa em um mês. Durante o dia, porém, a taxa de venda rompeu o suporte de R$ 1,94.
Apesar dessas conquistas, picotadas no dia-a-dia, o mercado acionário reagiu muito pouco. Em cerca de três semanas, até o pregão desta segunda-feira espremida entre o final de semana e o feriado de Finados, o Ibovespa acumulou valorização nominal de aproximadamene 3,8%. Mas, nas últimas três semanas até ontem, o ganho sobe a quase 9%. Com a disparada desta quarta-feira, a referência de preço volta a maio - mês em que a taxa Over/Selic caiu várias vezes, passando de 32% a 23,5% ao ano. Isto significa dizer, que apenas neste mês, o juro básico da economia brasileira encolheu 8,50 pontos percentuais ou um terço do corte histórico de 26 pontos registrados desde 24 de março até agora. Quanto aos títulos da dívida externa, ontem o papel mais procurado pelos investidores (C-Bond) era cotado no final da tarde a 833 pontos-base sobre os títulos do Tesouro norte-americano. Curiosamente, este "spread" também é o mais baixo observado em seis meses, o que reforça a percepção de que os ativos brasileiros estão sofrendo uma correção coletiva de preços e taxas, com o mercado confiante nas promessas do governo para o ano 2000.
Ainda em relação aos títulos da dívida externa, o comportamento dos "spreads" dos papéis brasileiros e argentinos ao longo do ano confirmam que o Brasil está num momento particularmente favorável. Tomando como exemplo os "spreads" do Par Bond e do Discount Bond brasileiros e argentinos, a trajetória do diferencial contra o Brasil é a seguinte: no início do ano, o Par brasileiro pagava cerca de 612 pontos-base acima do Par argentino; no final de junho, o Par brasileiro pagava 331 pontos a mais e, ontem, apenas 184 pontos acima do Par argentino. Considerando o Discount Bond, no início do ano, o Discount brasileiro pagava 935 pontos acima do Disco unt argentino; no final de junho, 294 pontos; e, nesta quarta-feira, cerca de 192 pontos.


