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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Kelly Lima 
Ribeirão Preto, SP, 04 (AE) - Projeto implantado ainda em fase de testes pela Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS) prevê que dentro de três meses a carne de porco chegará ao consumidor com um selo de qualidade, que garantirá o conhecimento de todo o seu processo desde a alimentação do animal, confinamento, condições de abate, teor de gordura entre outros detalhes rastreados em sua tajetória até as gôndolas do supermercado.
Pelo menos 20 granjas instaladas no interior do Estado (São Carlos, Descalvado, Brotas entre outros municípios) foram pré-selecionadas para a fase de testes, com base em sua qualificação verificada pela associação. Essas propriedades, segundo a APCS representam 35% do total de 150 mil toneladas produzidas no estado.
Segundo o presidente da associação, Valdomiro Ferreira Júnior, o objetivo do selo, além de agregar maior valor ao produto, é dar "maior segurança" ao consumidor no momento de compra da carne suína.
"Existe uma cultura contra a carne suína que foi sendo desenvolvida com o tempo, seja pela religião católica predominante no país, que evita o consumo deste alimento, como também por conta de aspectos sociais e até mesmo informações médicas que entendemos serem contraditóras, mas que fizeram com que o consumo de carne suína ficasse limitado", disse.
Segundo ele, a história da produção da carne no Brasil demonstra que por volta da década de 70, a agroindústria optou por desenvolver mais amplamente o setor de aves e apenas algumas marcas industriais mais conhecidas tiveram interesse em produzir os embutidos, que agregavam maior valor ao produto.
"Com isso, o consumidor se acostumou a comprar carne suína industrializada das grandes marcas e o frango de origem passou a ser visto como um produto de boa qualidade independente de sua marca", explicou.
O selo de qualidade que será colocado na embalagem da carne suína a partir de fevereiro do ano 2000, segundo a APCS, faz parte da campanha de popularização do produto no país, que visa aumentar em três ou quatro quilos a média de consumo por habitante em um ano.
Hoje, essa média de consumo é de 9,9 quilos por habitante por ano, sendo que Minas Gerais e Rio de Janeiro lideram o ranking nacional com uma média de consumo de 24 e 22 quilos respectivamente. O Estado de São Paulo consome em média 18 quilos por habitante por ano.
O presidente da APCS lembra que a média do país está bem abaixo da média mundial, onde a carne suína é tida como a que apresenta o maior consumo por habitante. Somente na Comunidade Européia, por exemplo, o consumo chega a 42 quilos por habitante por ano.
Ainda dentro do próprio país, a carne suína é a terceira mais consumida, atrás da carne bovina (30 quilos por habitante por ano) e aves (28 quilos por habitante por ano).
"A campanha deverá aumentar este consumo em pelo menos três quilos, mas acreditamos que somente o selo já será responsável por aumentar o consumo em mais 2,5 quilos, e então teremos a carne suína tecnicamente empatando com as aves num período de 24 meses", projeta ele.
Para a campanha de marketing, segundo Ferreira a Associação Brasileira de Criadores de Suínos está gastando uma média de R$ 0,10 por animal abatido. Considerando que são abatidos 13 milhões de animais por ano, o custo fica em R$ 1,3 milhão para a campanha, que envolve depoimentos de formadores de opinião, como médicos e zootecnistas.
As informações para compor o certificado de qualidade que vai dar origem ao "selo suíno paulista" já estão sendo obtidas e analisadas por técnicos da APCS, através de microchips colocados atrás das orelhas dos animais. O trabalho, que recebeu investimentos de R$ 700 mil até o momento, podendo chegar a R$ 1 5 milhão, vem sendo realizado há nove meses, com apoio da Fapesp e Unicamp, numa estação experimental no distrito de Tanquinho, em Piracicaba.
Cerca de 160 suínos vindos das 20 granjas escolhidas estão sendo analisados. Além disso, os técnicos também analisam instalações sanitárias de sua propriedade de origem, manejo do plantel e equipamentos utilizados, além da composiçào da ração do animal.
O animal só chega a estação experimental depois de 60 dias de acompanhamento em sua propriedade de origem e após atingirem a 20 quilos. Já na estação s ão acompanhados níveis de gordura e exames sorológicos.
O animal segue para o abate depois de 90 dias desse estágio na estação experimental. A previsão da APCS é de que a maior parte das 2.100 granjas existentes hoje no Estado terão condiçes de investir em estrutura para também obter o certificado até o ano 2001.
Na Fazenda São Carlos, localizada em Descalvado, por exemplo, o trabalho de rastreabilidade já está acontecendo há cerca de um ano num plantel de 750 matrizes capazes de fornecer 7,5 mil animais.
"Queremos que o consumidor confie no produto e a única forma de fazer isso e informar sua proveniência e o processo que o levou para sua mesa", explicou o proprietário da Fazenda, José Antônio Benvenga, um dos pioneiros no projeto no interior do Estado.


