Santiago, 03 (AE) - O primeiro debate televisivo da campanha presidencial chilena mobilizou a atenção do país e mostrou estilos opostos dos dois principais candidatos, embora suas propostas para temas econômicos e sociais tenham sido relativamente parecidas.
Joaquin Lavín, da coalizão oposicionista de direita Aliança pelo Chile, mostrou apuradas técnicas de marketing político para a apresentação na TV e concentrou as críticas na atuação social do atual governo chileno; Ricardo Lagos, candidato do governo de centro-esquerda da Concertación, adotou um estilo mais acadêmico e foi mais agressivo com o seu opositor, lembrando que seu adversário apoiou o regime militar.
Ricardo Lagos é o primeiro candidato socialista da coalizão que governa o Chile há dez anos, a Concertación. Os dois presidentes anteriores, Patricio Aylwin e Eduardo Frei, vieram do Partido Democrata Cristão (PDC). Líder disparado nas pesquisas há alguns meses, Lagos vem perdendo vantagem em relação ao segundo colocado, Joaquín Lavín, dos partidos Renovação Nacional e União Democrática Independente, e as últimas sondagens mostram empate técnico no primeiro turno.
O debate, transmitido em cadeia nacional de TV, começou às 22 horas de terça-feira, (23 horas de Brasília), mas desde o início da noite o clima em frente ao hotel na avenida Bernardo OHiggins, no centro de Santiago, de onde seria realizada a transmissão, começou a ficar nervoso. Dois candidatos com menor participação nas intenções de voto, que não foram convidados, fizeram manifestações.
A candidata do Partido Comunista, Gladys Marín, levou cerca de 200 partidários até a porta do hotel, e carregava um cartaz desafiando os dois candidatos líderes a debater com ela. "Isso não é democracia, é censura aos candidatos menores", dizia, enquanto os manifestantes xingavam de "palhaços" os jornalistas de TV que chegavam e exibiam fotos do ex-presidente Salvador Allende. Por volta das 20 h, militantes com máscaras representando Lavín e Lagos faziam acrobacias em frente ao prédio, sob o olhar frio dos "carabineros" (policiais) chamados para garantir a segurança.
O candidato Tomás Hirsch, do partido Humanista, também protestou na sede de seu partido, um edifício pintado de laranja e verde que fica em frente ao hotel.
Do lado de dentro, antes do início do debate a lista de convidados de cada contendor já mostrava um pouco de seu estilo. Lagos, 61 anos, levou, além da família, líderes dos partidos da Concertación, como o ex-presidente Patricio Aylwin, artistas e escritores. Lavín, 45 anos, levou os sete filhos, e convidou eleitores que conheceu durante a campanha pelo interior do Chile - incluindo representantes de populações indígenas.
Lavín mostrou conhecer bem a linguagem televisiva. Mostrou objetos às câmeras durante o debate (como o cartão de saúde usado pelos moradores de Las Condes, subúrbio de Santiago do qual foi prefeito, ou a chave da casa de uma senhora que o hospedou numa região longínqua do país durante a campanha), deu respostas curtas e concentrou sua argumentação na forte crítica ao governo da Concertación, ao crescimento do desemprego e às dificuldades sociais como a situação precária da saúde pública. Procurou fugir dos temas mais polêmicos ligados ao regime militar. Adotando um tom conciliador, Lavín disse que iria governar com "pessoas e não partidos". E declarou-se cristão para tentar captar o voto dos democratas-cristãos que relutam em votar no socialista Lagos.
Depois do fim do debate, pegou o filho menor no colo e posou para as câmeras. Entre as técnicas de sua campanha, está um "santinho" inovador: seus correligionários tiram fotos com Polaroids e dão de presente aos eleitores.
Lagos, com uma linguagem mais acadêmica e num ritmo relativamente lento para um debate na TV (suas respostas eram sempre interrompidas por exceder o tempo permitido), foi mais agressivo com o opositor, culpando os partidos que apóiam o adversário, por exemplo, pela continuidade da censura no Chile (alguns livros e filmes são proibidos) e pela permanência dos senadores biônicos no Congresso. Defendeu uma continuidade do governo da Concertación, mas com uma ênfase maior nos problemas sociais. Seu lema de campanha é "Crescer com Igualdade", em contraste com o "Viva a Mudança" de Lavín.
Embora na forma tenham sido muito diferentes, Lavín e Lagos não mostraram divergências substanciais em suas propostas econômicas e sociais para o país. Ambos defendem altas taxas de crescimento, maiores investimentos em saúde e educação. Ambos querem que o general Pinochet retorne ao país - mas enquanto Lavín afirma que Pinochet precisa voltar por razões humanitárias e que essa é uma questão de soberania nacional, Lagos afirma que o general deve voltar, mas que precisa ser julgado no Chile.
Os candidatos procuram manter um clima cordial, apesar das críticas políticas mútuas. Antes do início do debate, as possíveis primeiras-damas, Maria Estela de León (mulher de Lavín) e Luísa Durán (segunda mulher de Lagos) e seus filhos cumprimentaram-se amavelmente.

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