Paris, 03 (AE) - Tudo ia tão bem na França depois de dois anos e meio de socialismo sob a direção de Lionel Jospin: o céu era azul, os ventos suaves e agradáveis, algumas nuvens alegres como flocos de lã e um belo sol para tingir de ouro a paisagem. Mas, de repente: Cabrum! O ministro das Finanças, responsável em grande parte por esta bela paisagem, fez uma tolice (poderíamos dizer, uma vilania): é envolvido por uma velha história de corrupção leve. É a tempestade, o raio, o aguaceiro.
O ministro em questão, Dominique Strauss-Kahn, é obrigado a pedir demissão e hoje o governo de Lionel Jospin acordou no meio de um campo em ruínas: a bela arquitetura, elaborada há dois anos com base na competência, na seriedade e sobretudo na honestidade, desmoronou.
Será o começo da agonia da brilhante experiência socialista na França? Alguns o dizem. São os da direita. É verdade que o choque é rude. Apesar disso, é preciso reconhecer que, diante deste desastre inesperado, os socialistas reagiram com talento. O ministro das Finanças, implicado no escândalo, pediu espontaneamente a renúncia, embora protestando inocência. Este afastamento de um homem que parecia destinado às maiores honras, não deixou de chamar a atenção.
Esta sua atitude contrasta com o comportamento da direita, que também está implicada em numerosos processos judiciais.
O que faz um político de direita quando a justiça o aponta como suspeito de corrupção? Berra, recusa-se a abandonar sua mordomia, aferra-se ao seu cargo. É o caso, por exemplo, do prefeito de Paris, Jean Tiberi ("ex-braço direito" de Chirac), envolvido em vários escândalos (falsos eleitores, etc.) e que se agarra à sua cadeira de prefeito de Paris como um náufrago à sua bóia de salvamento, mordendo todos os que dele se aproximam...
Portanto, Jospin e os seus reagiram muito bem. Mas será que isso é suficiente para salvá-los do desastre? Absolutamente. Através deste ministro impuro, foi manchada a própria pureza de seu chefe, Lionel Jospin. Os dois políticos são muito ligados entre si. Jospin foi recentemente padrinho de casamento de Dominique Strauss-Kahn. Ora, Jospin construiu sua imagem sobre sua lealdade, sua modéstia e sua honestidade. É esta reputação - perfeitamente justificada - de honestidade que confere a Jospin e à equipe do governo sua "aura", sua força, sua credibilidade
tanto na França quanto no exterior. Por isso, quando um dos assessores de Jospin (Dominique Strauss-Kahn) aparece como um mentiroso e malcheiroso, é inevitável que a estátua de Jospin, resplandecente de brancura, fique maculada.
A direita afia suas navalhas. Apesar disso, não está brandindo muito estas navalhas nem as coloca nas gargantas dos socialistas que lhes estão sendo oferecidas. Está demonstrando uma extrema prudência. O motivo desta mansidão é evidente: a direita também tem um armário estofado de negócios extremamente fétidos.
Voltamos a um esquema clássico: a direita e a esquerda estão se poupando mutuamente para que a onda de revelações não ultrapasse certo nível. A direita e a esquerda estão uma em frente à outra como dois cowboys que se enfrentam num filme do Velho Oeste: os dois avançam suavemente um para perto do outro, com duas grandes pistolas batendo em seus cinturões de couro, mas nenhum nem outro saca sua arma. O motivo desta prudência é muito simples: "o primeiro que sacar, será morto".
É difícil imaginar um esquema político mais detestável do que este.
Outrora, durante a Guerra Fria, falava-se de "equilíbrio do terror".
Será que hoje precisamos falar de "equilíbrio da corrupção"?





