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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Mauro Carvalho da Silva 
São Paulo, 03 (AE) - Um homem, que se identificou como o oficial da reserva do Exército Edgard Saleme, impediu hoje a colocação de uma pedra gravada em homenagem ao líder guerrilheiro Carlos Marighella, na altura do número 815 da Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, onde ele foi morto em 1969. "Se for preciso, darei até tiros", teria ameaçado. "Não quero um monumento a um bandido em frente da minha casa".
O granito polido, denominado Memorial Carlos Marighella, traz a inscrição "Aqui tombou Carlos Marighella, assassinado em 4 de novembro de 1969 pela ditadura militar". Em razão da reação do suposto oficial da reserva, a obra foi deixada sobre a calçada, em vez de ser instalada sob uma árvore, como pretendia seu autor, o arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz. Segundo ele, "o homem estava completamente transtornado e agressivo e fez várias ameaças, impedindo a colocação da pedra em pé".
Para Ferraz, não se trata de uma questão ideológica. "O Estado reconheceu a culpa pelo assassinato e indenizou a família de Marighella". Ele entende que o local é um marco na história de São Paulo e do Brasil. "Seria, em menor proporção, como o local da queda da Bastilha, na França, ou o do assassinato de John Lenon, nos EUA", disse. "Esses locais fazem parte da história de seus países e são visitados por milhares de pessoas".
Ato - Para amanhã (04), às 11 horas, está marcada a realização de um ato público pelos 30 anos da morte de Marighella, justamente no local onde ele foi morto, no dia 4 de novembro de 1969. Naquela data, por volta das 20 horas, moradores e pessoas que passaram pela Alameda Casa Branca ouviram um tiroteio. Depois, viram agentes do extinto Departamento de Ordem Política e Social (Dops), da Polícia Federal, da Operação Bandeirante, da Força Pública, da Guarda Civil e da Polícia Civil, armados com metralhadoras, rifles e revólveres e, num automóvel Volkswagen, o corpo de Marighella.
O ato e o memorial são uma homenagem a Marighella promovidos por um grupo de intelectuais, entre eles o jornalista Mino Carta, os arquitetos Rui Ohtake e Oscar Niemeyer, a escritora Lígia Fagundes Teles, o advogado Fábio Comparato e o crítico literário Antônio Cândido, que devem estar presentes ao evento amanhã. Autorização - Para inaugurar o memorial, esses intelectuais solicitaram autorização ao prefeito Celso Pitta (PTN), para utilizar o local. Amanhã, o Diário Oficial do Município publica decreto que integra ao patrimônio municipal a obra do arquiteto Ferraz, "a escultura denominada Memorial Carlos Marighella" e destina a área localizada na Alameda Casa Branca, altura do número 815, para a instalação do memorial. "Será fixado no tronco de árvore tipuana, circundado por cimento na cor vermelha
com moldura em filete de granito preto", diz o decreto. Traidor - Durante as comemorações da Semana da Pátria, em 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto indenizando as famílias de dois líderes da esquerda que lutaram contra a revolução de 64, Marighella e Carlos Lamarca. Na época, o general Oswaldo Pereira Gomes, representante das Forças Armadas na Comissão de Direitos Humanos do Ministério da Justiça
lamentou a decisão do presidente de conceder, exatamente na Semana da Pátria, benefícios à família do ex-capitão Lamarca, considerado um "traidor" pelos militares. Para ele, a decisão da comissão foi política. Ele e outros militares haviam solicitado ao presidente que não assinasse o decreto.


