Campinas, SP, 03 (AE) - Uma tese de doutorado, que nasceu com a intenção de avaliar a poluição do lago Silvana, no médio rio Doce, Minas Gerais, acabou revelando um novo método de levantamento da história climática nos trópicos. A tese se transformou num livro, publicado em inglês pela Editora Springer-Verlag, na Alemanha, em julho deste ano. E deverá ser lançado também no Brasil, no ano 2000, pelo Centro de Tecnologia Mineral, CETEM (http://www.cetem.gov.br).
O autor, Saulo Rodrigues Filho, do Cetem, desenvolveu a tese na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, orientado por German Muller, geoquímico conhecido como o primeiro cientista a se dedicar ao problema da contaminação por metais pesados em rios alemães, na década de 70. "Escolhemos o lago Silvana, que pertence a um conjunto de cerca de 50 lagos de Ipatinga, no vale do rio Doce, porque ele fica próximo da Usiminas e a primeira intenção era avaliar a poluição no sedimento do fundo e de suas margens", conta Rodrigues Filho.
A poluição não se revelou significativa, mas haviam outros segredos na coluna de 13 metros de sedimentos, retirada do fundo do lago para análises químicas, mineralógicas e de paleopólen (pólen fóssil). Através dos contrastes verificados entre os metais pesados e demais minerais, nas análises química e mineralógica, o pesquisador conseguiu identificar camadas em diferentes profundidades do solo, separadas conforme a origem do material lacustre e a natureza dos processos erosivos responsáveis pelo transporte dos solos. Como a natureza dos processos erosivos depende do tipo de cobertura vegetal e das condições climáticas existentes, este novo tipo de análise demonstrou-se viável para se inferir a história climática da região.
"Em geral, a história é contada pelo pólen coletado em diversas profundidades", acrescenta Rodrigues Filho. Segundo ele, o método de análise do pólen foi utilizado para controle das análises química e mineralógica, comprovando a eficácia do novo método. A ressalva é que o método não funciona em regiões temperadas, onde o baixo intemperismo não gera os contrastes observados no lago Silvana e, portanto, não permite a distinção das camadas.
Ao reconstruir a história climática daquela região de Minas, Rodrigues Filho confirmou a teoria defendida pelo geólogo alemão Reinhardt Pflug, que em 1969 estudou a evolução morfológica do relevo e sugeriu que o sistema de lagos teria sido gerado a partir de uma brusca mudança climática, ocorrida há 14.500 anos, no final da última grande glaciação. De acordo com o trabalho do pesquisador do Cetem, há indícios de uma brusca mudança climática, de clima frio e seco para quente e úmido, que causou um extraordinário acúmulo de material sólido nos rios, em decorrência de uma súbita elevação das taxas de chuvas, gerando verdadeiras barragens naturais, e assim, os lagos da bacia do rio Doce. Porém, isso teria ocorrido muito depois do que acreditava Pflug, precisamente há 8.500 anos, quando o surgimento de um clima semelhante ao atual favoreceu o desenvolvimento de florestas tropicais no sudeste brasileiro, como a Mata Atlântica.
A pesquisa de Saulo Rodrigues Filho recebeu recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Capes (http://www.capes.gov.br), de 85 mil dólares em 3 anos e meio, além da colaboração de um pesquisador holandês, especializado na análise de paleopólen. Mais informações pelo telefone (21) 5607222 ramal 258 ou do endereço eletrônico [email protected].

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