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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 03 (AE) - O ex-ministro Maílson da Nóbrega afirmou hoje que ao transformar a inflação em critério de desempenho na revisão do acordo com o FMI, a equipe econômica aponta que o Banco Central vai continuar intervindo na política de câmbio, oferecendo "hedge" ao mercado ou limitando o processo de desvalorização do real. "O BC vai usar todos os instrumentos para atingir a meta", disse.
Segundo ele, o País não pode ter um modelo de câmbio flutuante clássico em função do alto grau de vulnerabilidade ao fluxo de capitais externos e também porque ainda espera pelas reformas estruturais. "Vai ficando cada vez mais claro que temos um regime mestiço", disse, referindo-se à expressão usada pelo ex-presidente do BC Gustavo Franco, ao questionar a adoção de um câmbio flutuante.
A adoção de um modelo de câmbio flutuante clássico "seria uma ameaça", de acordo com o ex-ministro, já que o Brasil está vulnerável "à mudança de humores do mercado internacional". A partir da crise financeira internacional de 1997, Maílson disse que ficou evidente que os países menos vulneráveis às oscilações externas são aqueles com maior participação no comércio internacional.
De acordo com Maílson, o fraco desempenho das exportações brasileiras coloca o Brasil na situação inversa à da Coréia, por exemplo, que conseguiu reverter a desvalorização de sua moeda com o desempenho de suas contas de transações correntes. Um déficit de US$ 23 bilhões em 1996 foi revertido para um superávit de US$ 13 bilhões em 1998 em função da balança comercial.
Maílson acredita que ficou acentuada a necessidade de aumentar a independência do Banco Central, com a transformação da inflação em critério de desempenho na revisão do acordo com o FMI. A autoridade monetária precisa ter cada vez mais, segundo ele, rapidez para reagir diante de uma ameaça de pressão inflacionária, o que justificaria o aumento de liberdade do BC.
De acordo com o ex-ministro, para atingir a meta inflacionária de 6% em 2000, que pode passar a ser uma meta obrigatória no acordo com o FMI, o Banco Central poderá adotar medidas no campo monetário. Assim, diante da inflação em alta, o BC poderá elevar a taxa de juros ou reduzir o crédito disponível no mercado, arcando com as consequências indiretas, como de reabrir a discussão da sustentabilidade do nível de endividamento público ou de optar pela recessão.
Os primeiros meses de 2000 serão um "grande teste" para o Banco Central à medida que não se confirmarem as expectativas "muito otimistas" do governo, na avaliação de Maílson. Até o momento, ele não vê indícios de que ocorra uma recuperação dos preços das commodities no mercado internacional que melhore substancialmente o desempenho da exportações brasileiras. Além disso, a perspectiva de um crescimento de 4% do PIB em 2000 aumentará a demanda interna e, consequentemente, as importações brasileiras.
Segundo Maílson, mesmo a restauração dos fluxos externos está superestimada pelo governo. Assim, o câmbio deve ficar no patamar entre R$ 1,95 a R$ 2,00 no primeiro trimestre de 2000. A prometida apreciação do câmbio não viria de forma rápida e forte
aumentando a pressão inflacionária. A partir desse quadro, o governo teria ainda de enfrentar a discussão pró-reindexação da economia que vem ganhando força, na avaliação do ex-ministro, pelos dissídios de algumas categorias e também por pleitos em negociação, como o dos funcionários da Petrobras, que querem 5 5% de aumento salarial, mais 37% de perdas salariais desde o real e 24% de produtividade.
"Este tipo de demanda estava adormecido até 1998 porque a tendência da inflação era declinante e a economia estava em recessão, o que fazia com que o emprego fosse mais valorizado do que aumento de salário", avaliou Maílson. "Agora o BC vai ter de enfrentar esse tipo de ameaça às metas de inflação."


