Paris, 03 (AE) - O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse hoje (03) em Paris que a moeda única do Mercosul só deve ser adotada a longo prazo. Para ele, a nova moeda dependeria de, entre outras medidas, consolidação fiscal e harmonização tributária. "Só num horizonte de mais longo prazo, em algum momento do século XXI, poderemos caminhar nessa direção", afirmou o ministro da Fazenda.
Economistas da União Européia (UE) têm apontado como solução para consolidar o Mercosul a aceleração desse processo, aproveitando a experiência européia. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso levantou essa hipótese recentemente.
Para o ministro Malan, o processo depende de um grande trabalho interno em cada um dos países. Só depois de acertados certos parâmetros será possível imaginar o cronograma da moeda única, fixando-se a taxa de cambio do real, do peso argentino e das outras moedas que deveriam flutuar em relação ao dólar, iene e euro. Malan acha que a questão da moeda única ganhou força com com o debate sobre dolarização, um caminho que ele sempre condenou.
O ministro acredita que a dolarização pode ocorrer em pequenos países como o Panamá ou Libéria. Garante que não conhece nenhuma experiência bem sucedida em países maiores ou de economia mais importante. "Nunca acreditei em decisões unilaterais de dolarizar uma economia, mesmo em medidas negociadas com países que emitem a moeda, no caso dos EUA".
O Mercosul é, para o ministro, a principal preocupação de seus interlocutores europeus nesse seu atual giro pela Europa. Pedro Malan reconhece que se tivesse que apontar uma preocupação não seria em relação à economia do Brasil, razoavelmente conhecida na Europa. Malan lembra que o fato do presidente eleito na Argentina, Fernando de la Rúa, ter visitado o Brasil antes dos EUA e Europa, demonstra a preocupação em priorizar o bloco subregional.
Para o ministro, dolarizar uma economia requer respostas para três questões básicas: 1) Até que ponto o país que emite a moeda estaria disposto a exercer o papel de emprestador de última instância para o país dolarizado? Todos os sinais emitidos pelo Tesouro dos EUA e pelo FED são reticentes; 2) A questão da responsabilidade da supervisão e regulação bancárias do sistema financeiro dolarizado deve ser equacionada; 3) A capacidade dos governos de emitir moeda e de se apropriar de recursos. Há uma discussão complexa de como distribuir esses ganhos entre o país que emite a moeda e o que a utiliza.
Num discurso de militante, o ministro fez alguns desabafos. Para ele, o Brasil deveria evitar o discurso fácil. "Esse qualquer um sabe fazer, seja de forma elegante ou mesmo violenta", disse. Para Malan, também é muito fácil fazer uma lista das mazelas do Brasil - fome, pobreza, miséria, opressão, impunidade, exclusão. Depois, diz ele, basta culpar o governo federal por todos os problemas. "Em qualquer país se responsabiliza um governo pelo que ele fez ou deixou de fazer no espaço de seu mandato, mas no Brasil, a tendência é responsabilizá-lo pelos ulltimos 500 anos de história", desabafou Malan.
"É fácil ser cético em relação ao Brasil, mas antes do ceticismo deveríamos trabalhar pelo interesse de todos", disse Malan. Para o ministro, os que estão seriamente preocupados com a pobreza absoluta no Brasil deveriam também pensar nos problemas de gastos públicos, em especial nos setores de educação, saúde e previdência.
Ele citou o exemplo da aposentadoria no serviço público aos 52 anos de idade, com salários superiores aos do tempo em que se encontravam na ativa: "O salário de um servidor aposentado na Europa é da ordem de 70% a 80% do salário da ativa". E ironizou: "No Brasil, como somos um país mais rico, permitimos que as pessoas se aposentem mais cedo e com salários ainda mais altos".
Malan explicou que nessas ultimas décadas vivemos uma enorme revolução tecnológica, um mundo em tempo real. A consequência na área econômica foi a redução enorme dos custos das transações econômicas e financeiras, o que criou grandes desafios para a condução de políticas macroeconômicas.
Para o ministro brasileiro, que cita o Brasil como um dos mais injustos do mundo e com maior número de excluídos desconhece a existência da Índia ou Bangladesh. Citou estudo do Banco Mundial que afirma que dos 1,2 bilhão de pessoas que vivem com um dólar por dia, 90% se concentram na ásia e áfrica e somente 6% na América Latina. "Não se trata de um consolo, mas se a tarefa na ásia e áfrica é hercúlea, no Brasil está a nosso alcance".
O ministro criticou também o excesso de centralização exercido pela administração em Brasília. "O Brasil é muito grande para permitir grandes programas centralizados". E arrematou: "Não se pode esperar soluções milagrosas de Brasília".





