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terça-feira, 05 de outubro de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 06 (AE) - A Polícia Federal (PF) está investigando a informação de que o funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Temílson de Resende, o "Telmo", principal suspeito do grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), possui duas contas no exterior - uma na Costa Rica e outra num paraíso fiscal. As contas estariam em nome de "laranjas". Segundo fontes ligadas ao caso, na escuta telefônica autorizada judicialmente e realizada nos telefones celulares dos suspeitos, "Telmo" foi pego referindo-se a esses depósitos no exterior.
Nas investigações, apurou-se que, logo após o grampo no BNDES, "Telmo" perdeu US$ 8 mil num jogo de pôquer, quantia incompatível com os rendimentos dele - o salário bruto dele como agente da Abin é de R$ 3.327,00, mas, com os descontos, ele recebe pouco mais de R$ 1.700,00. Em entrevista, no sábado (02), "Telmo" garantiu que os únicos bens que tem são um Opala 1992 e uma casa em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio.
As gravações feitas a partir do grampo no celular de "Telmo" incriminam também o agente num esquema de venda de passaportes falsos: ele aparece negociando os documentos com "clientes". O cerco que está se fechando sobre "Telmo" pode atingir o ex-coordenador da Abin no Rio João Guilherme Maia. No depoimento em juízo, o ex-policial federal Célio Arêas da Rocha afirmou que Maia e "Telmo" são muito amigos e, por isso, não havia como o coordenador da Abin não saber do grampo no BNDES. Maia, que foi indiciado por falso testemunho, apresentou à Justiça, no entanto, ofícios nos quais pedia o afastamento de "Telmo" do serviço.
Hoje, o delegado federal Rubens Grandini ouviu pessoas citadas por Rocha. O primeiro a depor foi o engenheiro civil Nelsino Drozczak da Silva, que negou ser "sócio" de "Telmo". O especialista em segurança Bechara Jalkh iria ser reinquirido, mas, até o fim da tarde de hoje, o depoimento dele não havia sido tomado. Foram ouvidos também o síndico do prédio do BNDES, José Armando Taddei, e o chefe da segurança do banco, coronel Fernando Oliveira de Araújo. A PF está investigando a possibilidade de ter havido conivência de funcionários do banco, como aponta o ex-policial.
Durante as investigações, ficou demonstrado que toda a parte de segurança do BNDES é controlada por uma central de operações. Para alguém entrar no prédio sem que a presença seja registrada, é preciso que um funcionário dessa central desligue as câmeras de vídeo. Esse ponto se tornou importante a partir de uma informação dada à polícia por Jalkh. Ele foi chamado para fazer um plano de segurança no prédio após o episódio do grampo e descobriu vestígios de uma extensão no aparelho de ramal da presidência - o que só podia ser feito por quem tivesse acesso ao gabinete.
A perícia oficial, porém, constatou que houve grampo apenas nas quatro linhas diretas do gabinete - o que teria sido feito fora do banco. A hipótese de escuta no ramal digital reforçou-se também com o depoimento dado à PF pelo ex-funcionário da empresa Telecomunicações do Rio de Janeiro (Telerj) Waldeci Alves de Oliveira. Ele contou que foi chamado pelo detetive particular Adilson Alcântara de Matos - outro suspeito do grampo - para fazer uma extensão no BNDES.
Estava previsto também para hoje o depoimento do coronel Romeu Antônio Ferreira, ex-diretor do Centro de Inteligência de Segurança Pública (Cisp) da Secretaria Estadual de Segurança. A PF deverá ouvir ainda esta semana o coronel Marcelo Romeiro da Roza, irmão do diretor da Telemar Rio, Márcio Romeiro da Roza. Os nomes deles foram citados por Rocha no dossiê entregue à Justiça.
Só depois de encerrar os depoimentos é que o delegado vai decidir se haverá novos indiciamentos. Por enquanto, além de Maia, estão indiciados "Telmo", Matos e o coordenador de operações da Abin Gerci Firmino da Silva por falso testemunho. É certo que Rocha será indiciado para depois requerer o perdão judicial. Caso todos os nomes citados ou apontados por Rocha não sejam indiciados pelo grampo, o Ministério Público Federal (MPF) poderá denunciá-los por formação de quadrilha. O relatório do delegado deverá ser entregue ao Ministério Público na próxima semana.


