Washington, 21 (AE) - Horas depois de o New York Times ter revelado que o FBI está investigando informações "críveis" sobre a participação de pessoas próximas do presidente Boris Yeltsin, entre as quais um genro, em lavagem de dinheiro de corrupção por meio do Bank of New York, o secretário do Tesouro, Lawrence Summers, afirmou hoje (21) no Congresso que os Estados Unidos precisam continuar a apoiar a Rússia se quiser evitar o risco de ser responsabilizado pelo fracasso do país.
"Pôr a Rússia em quarentena, contê-la ou abandoná-la como excessivamente corrupta serviria mal nosso interesse nacional", afirmou Summers na primeira de uma série de audiências públicas sobre o envolvimento do banco americano nos alegados esquemas de malversação de fundos públicos em Moscou.
Agir dessa maneira, "limitaria nossa habilidade de apoiar a estabilidade financeira e econômica da Rússia, de promover a democracia e aumentaria os riscos de os EUA e do Ocidente virarem bodes expiatórios do fracasso da Rússia", afirmou o secretário do Tesouro.
Numa ação preventiva, hoje o governo suíço congelou US$ 16,8 milhões em contas suspeitas de ligação com o caso. De acordo com uma fonte oficial citada pelo New York Times, o FBI está examinando o envolvimento de Leonid Dyachenko, o marido da filha mais nova do líder russo, Tatyana, e de Pavel P. Borodin, um assessor próximo de Yeltsin num esquema de corrupção pelo qual até US$ 10 bilhões de recursos oficiais teriam sido desviados e "legalizados" através do Bank of New York, o décimo quinto maior dos EUA. Pelo menos uma das contas congeladas pelo governo suíço estava em nome de Borodin.
O porta-voz de Yeltsin, Dmitri Yakushkin, reiterou hoje uma nota que divulgou há dias negando qualquer participação do presidente ou de sua família em corrupção. Mas Yakushkin esclareceu que o desmentido cobria apenas a família imediata do presidente russo, e não o genro. Ao mesmo tempo, ele desmentiu rumores de que Yeltsin estaria prestes a renunciar.
Até estourar o escândalo, o Bank of New York, era o principal prestador de serviços financeiros para o governo de Moscou. Duas altas executivas do banco, que cuidavam da conta russa, já foram afastadas e, uma delas, Lucy Edwards, perdeu o emprego.
O escândalo de corrupção na Rússia deverá ser um dos temas dominantes da reunião anual do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, que começa em Washington neste fim de semana. O FMI, que emprestou US$ 22 bilhões a Moscou, dos quais desembolsou US$ 16 bilhões, está na segunda investigação sobre o uso dos recursos. O Banco Mundial tem 30 dos 34 programas que financia na Rússia sob exame.
A dificuldade de se tratar a questrão russa não se restringe ao governo dos Estados Unidos. Ela provoca divisões dentro das instituições encarregadas de ajudar a Rússia a fazer a transição da economia de comando para o sistema de mercado. O presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, criticou publicamente hoje o vice- presidente senior e economista-chefe da instituição, Joseph Stiglitz, por causa de um estudo que este apresentou recentemente, no qual atribuiu uma parte da responsabilidade pelo fracasso da experiência de reforma da Rússia ao receituário liberal do chamado Consenso de Washington e "sua falha em compreender elementos centrais da economia de mercado". Uma das falhas apontadas por Stiglitz foi ter promovido um processo de privatização antes de a Rússia estar preparada para isso.
"Não tenho dúvida de que houve erros, (...) mas creio que as coisas que Stiglitz escreveu recentemente sobre a Rússia não estão totalmente corretas", afirmou Wolfensohn, sem tentar esconder sua frustração com um subordinado que é muito mais importante do que ele próprio no debate sobre economia e que não hesitou em atacar publicamente a abordagem do FMI na crise financeira asiática, em 1997.





