Díli, 22 (AE-AP) - Três dias após a Força Internacional das Nações Unidas para Timor Leste (Interfet) ter desembarcado na assolada província indonésia, o comandante australiano da missão admitiu que que ele não tem soldados suficientes para proteger todas as áreas de Díli, a capital timorense.
O general australiano Peter Cosgrove disse que "o controle está sendo estabelecido em certos setores da cidade", mas é evidente que "Díli continua sendo um lugar perigoso, em particular para os numerosos jornalistas que estão aqui".
O corpo mutilado do jornalista holandês Sander Thoenes, correspondente do jornal inglês Financial Times, foi encontrado hoje em Becora, subúrbio de Díli. Um timorense que transportava Thoenes em uma motocicleta disse à imprensa que homens com uniformes militares dispararam quando eles tentaram burlar um bloqueio numa estrada de Becora, reduto de milicianos pró-Indonésia, armados e apoiados por militares indonésios. O motociclista conseguiu fugir, mas o jornalista caiu nas mãos dos atacantes.
Na terça-feira, um repórter britânico e um fotógrafo americano partiram de Timor Leste depois que milicianos atacaram o carro em que estavam, ferindo seriamente o motorista e sequestrando o intérprete.
O chanceler indonésio, Ali Alatas, lamentou hoje o assassinato de Thoenes, de 30 anos, a quem ele conheceu pessoalmente.
Entre terça-feira e hoje vários prédios foram incendiados e alguns refugiados, que se dirigiam a um estádio de futebol sob a guarda da ONU, foram acossados por soldados indonésios que queimaram seus pertences. Também foram encontrados por residentes de Díli os corpos de cinco pessoas em um poço no fundo da casa de Manuel Carrascalao, um importante líder da resistência.
"Foram verdadeiras 24 horas de perigo", disse o general Cosgrove. Os soldados da Interfet começaram hoje, cautelosamente, a trasladar- se para outras áreas de Timor Leste. Segundo o general australiano Mark Evans, 150 soldados já chegaram a Baucau, a segunda mais importante cidade de Timor Leste. "Ainda há muita gente perigosa por aí", disse Evans.
Vários grupos de milícias uniram-se hoje em uma frente e proclamaram que combaterão para reconquistar o controle da ex- colônia portuguesa. Milhares de milicianos com fuzis, pistolas e machetes, gritando a favor da união de Timor Leste com a Indonésia, reuniram-se na localidade de Atambuia, perto da fronteira com Timor Oeste.
Os milicianos, acusados de matar milhares de timorenses, iniciaram uma verdadeira campanha de terror no dia 4, após o anúncio do resultado do plebiscito amplamente favorável à independência do território.
Tropas da Interfet invadiram hoje um quartel-general dos milicianos em Díli, detiveram seis homens e apreenderam além de muitas armas, várias fotos e documentos. O QG da milícia, em um antigo hotel que foi usado como centro de tortura pelas tropas indonésias, havia sido praticamente abandonado após a chegada das tropas internacionais.
Os soldados da Interfet também foram obrigados a conter centenas de refugiados timorenses famintos que desceram das montanhas perto de Díli e saquearam um armazém governamental, levando sacos de arroz, farinha e óleo.
Após três dias de interrupção, os vôos com ajuda humanitária foram retomados hoje. Três aviões militares lançaram de pára-quedas entre 18 e 30 toneladas de suprimentos em regiões onde estão abrigados milhares de refugiados.





