Dili, 22 (AE-AP) - Ao receberem ordens para sair do táxi que os levava depois de o carro ter seus pneus atingidos por disparos, os jornalistas John Swain e Chip Hires pensaram que iriam ser mortos. Ele sobreviveram para contar a história. Sander Thoenes não teve a mesma sorte.
Os dois ataques ilustram os perigos ainda presentes em Timor Leste apesar da chegada das forças internacionais de paz, que foram enviadas para pôr fim às desordens que se seguiram à votação de 30 de agosto pela independência da região.
A Federação Internacional de Jornalistas expressou hoje (22) sua indignação com a morte de Thoenes - que acredita-se seja a primeira de um estrangeiro desde que a intervenção teve início na segunda-feira -, classificando-a de uma tentativa grosseira de impedir que jornalistas reportem o que está ocorrendo em Timor Leste.
Não está claro quem foram os responsáveis pelos dois ataques na noite de terça-feira, apesar de os crimes estarem aparentemente ligados ao movimento antiindependência do território. Foi noticiado que os atacantes de Thoenes vestiam uniformes cinzentos da polícia indonésia, enquanto os que assaltaram Swain e Hires tinham uniformes do exército da Indonésia.
Nas Nações Unidas, o ministro do Exterior indonésio, Ali Alatas, disse que conhecia pessoalmente Thoenes, a quem concedeu várias entrevistas.
"Assim, estou muito, muito sentido em ouvir a notícia. E lamento profundamente", afirmou ele. "Isto mostra que temos sempre de ser muito, muito cuidadosos. Apesar de parecer que as coisas estão lentamente voltando ao normal, você ainda tem esta situação de insegurança".
O major-general australiano Peter Cosgrove, comandante da força internacional de paz, disse que as milícias estão fazer uma demonstração de força em Dili e que os ataques foram "obviamente uma reação a nossa presença".
Milicianos têm prometido matar ocidentais, a quem eles acusam de ajudar o Timor Leste a se libertar da ocupação indonésia. Cosgrove advertiu a jornalistas em Dili para ficarem o tempo todo perto dos soldados de paz.
Thoenes, 30 anos, era um cidadão holandês e correspondente do jornal londrino Financial Times, e trabalhava também para outras publicações, como The Cristian Science Monitor. Ele havia visitado Timor Leste várias vezes desde que mudou-se do Casaquistão para Jacarta em 1997.
Thoenes estava menos de duas horas em Dili na terça-feira quando contratou o motociclista Florindo Araújo para levá-lo pela cidade.
Araújo contou que levou Thoenes para o subúrbio de Becora, palco de intensas ações de milicianos e militares indonésios que os apoiam.
Os dois se aproximaram de uma barreira guardada por pelo menos seis homens armados com uniformes cinzas da polícia da Indonésia.
Ao invés de parar, eles deram meia-volta, mas alguns dos homens os perseguiram. Quando o carro dos perseguidores emparelhou com a motocicleta, os homens no interior fizeram disparos de alerta.
Como a motocicleta não parou, os homens atiraram contra o pneu traseiro dela, fazendo com que a moto tombasse, segundo Araújo. Ele disse que parecia que os homens se preparavam para atirar de novo, então ele fugiu. Araújo viu Thoenes pela última vez caído no chão.
O corpo mutilado do jornalista foi encontrado mais tarde. Ele apresentava ferimentos em todo o corpo e uma orelha fora decepada.
Não muito depois, Swain e Hires começavam sua própria odisséia
que terminou horas depois quando soldados australianos num blindado, apoiados por helicópteros Blackhawk, os resgataram.
Swain, 51 anos, um jornalista premiado, trabalhava há 26 anos para The Sunday Times e cobriu tanto Vietnã quanto Camboja.
A história de como ele e o correspondente do The New York Times foram salvos por seu tradutor cambojano, Dith Pran, inspirou o filme "Gritos do Silêncio". Hires, um fotógrafo americano, trabalha para a agência Gamma e está baseado em Paris.
Abalado mas ileso, ele relatou como homens em uniformes do exército, armados com fuzis M-16, atiraram contra os pneus de seu táxi e espancaram tão violentamente o taxista que um dos olhos dele pulou para fora.
"Eles disseram, Saiam do táxi, e pensamos, tudo bem, acabou", relatou Hires.
Na verdade, um dos homens disse para eles correrem, e eles fugiram para uma floresta próxima.
"E nós esperamos até o anoitecer", afirmou Hires. "Ligamos para o Sunday Times pelo telefone celular de Jon e pedimos para que mandassem a polícia montada ou a cavalaria ou o que fosse".
Hires acredita que o ataque pode ter sido feito por militares renegados.
"Espero que eles sejam unidades bandidas porque se esta é a política geral, então trata-se de um exército bandido", disse.

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