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quinta-feira, 16 de setembro de 1999
Por Ricardo Osman 
São Paulo, 17 (AE) - O governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), foi atingido hoje por um ovo no peito, durante manifestação dos servidores públicos do Estado contra a proposta de reforma da Previdência estadual. Supreendendo os manifestantes, Covas deixou o gabinete às 16h15 e, com poucos seguranças, cruzou os portões do palácio e subiu no carro de som dos servidores. Foi aí, do alto do caminhão - um trio elétrico - que ele foi atingido pelo ovo. A cena foi marcada pelo empurra-empurra da multidão, mas o governador, nervoso e com o rosto vermelho, não titubeou.
Reafirmou a decisão de manter a proposta e desafiou: "Conversa, conversa, tu é macho no meio deste povo todo", gritou Covas para um manifestante que, localizado diante do carro, o xingou. Ele contra-atacou uma mulher que o chamou de ladrão: "É você; é você." De microfone na mão e a camisa azul manchada pelo ovo, ele iniciou o discurso, afirmando que não vai desistir do projeto de reforma da Previdência, que tramita na Assembléia.
O governador foi vaiado pelos cerca de 6 mil manifestantes, pela estimativa da Polícia Militar, e 30 mil, no cálculo dos representantes dos servidores. "Fiz e não vou retirar (o projeto)", garantiu Covas. "Pensei que encontraria uma educação maior do que alguém jogando ovo, jogando pau", protestou ele.
"Por isso, é que eu ganho (eleições) porque não preciso jogar nada em vocês e vocês não sabem fazer outra coisa a não ser isso." O governador ressaltou, em seguida, que vai guardar a camisa manchada pelo ovo: "Vou guardar isso como lembrança de vocês, como lembrança do que eu recebi hoje aqui."
O discurso foi interrompido por vaias e Covas avisou: "Vou descer (do carro de som) e vou passar por aí; eta gente corajosa!; quantos têm aqui?", perguntou. "Um aqui e 5 mil aí; como são machões!", respondeu.
Covas declarou aos manifestantes que, se são contrários à proposta, que briguem pelos pontos de vista na Assembléia. "Mandei o projeto (para a Assembléia) e vou deixar o projeto lá; se vocês quiserem modificar, têm todo direito de fazer, mas vão à Assembléia fazer isso." De acordo com o governador, a reforma é inadiável. "Estou fazendo a minha obrigação; o meu compromisso é com o futuro; se isso fosse, diferente o salário não seria o que é", afirmou. "Não façam disso uma festa partidária, não façam disso uma coisa como essa." Por fim, reforçou: "De forma que fica dito e repetido, não vou retirar o projeto." No fim do discurso, agradeceu: "Venham sempre, esta casa é de vocês, é mais do povo do que de vocês; obrigado pela visita."
Covas desceu do carro de som e caminhou pelo meio dos manifestantes até o portão do Palácio, localizado a uns 10 metros. Poucos seguranças o protegeram de servidores exaltados, mas ele mesmo tratou de abrir com os braços o caminho.
Tão logo Covas desceu do carro de som, o presidente da Federação das Entidades dos Servidores Públicos, José Gozze, começou a discursar, pondo em dúvida a coragem de Covas. "Ele não é corajoso não; ele veio aqui porque sabe que já perdeu; sabe que, se não retirar o projeto da Assembléia, nós vamos retirar", afirmou. "Nós já ganhamos", insistiu Gozze.
Ao passar pelo portão que, momentos antes, teve os cadeados abertos por um oficial, Covas foi aplaudido por assessores, secretários de Estado e policiais. O gesto do governador surpreendeu os deputados da oposição que estavam na manifestação, como Mariângela Duarte (PT). "Tentei proteger o governador", disse ela, ainda assustada. Desde as 14 horas, quando os manifestantes começaram a se reunir diante do Palácio e no estádio do Morumbi, uma comissão de deputados e representantes dos servidores tentava obter de Covas uma audiência. Estavam ali os deputados Jilmar Tatto (PT) e Jamil Murad (PC do B).
De volta ao Palácio, Covas reagiu com bom humor ao incidente e recordou que fizera gesto semelhante durante a greve dos professores. "Essa é a segunda camisa que eu vou guardar"
disse. "Um presente deste aqui eu não vou deixar de guardar; eles estão fazendo uma justa reivindicação, têm todo direito, jogar ovo é um pouco de excesso, mas, como é um ovo, no meio destas milhares de pessoas, não é para levar em consideração."
"O dia que não puder enfrentar estas coisas, saio do governo; obrigação de quem governa é essa, vir aqui dar satisfação, mesmo se não for para agradar", afirmou Covas. Ele acrescentou: "Se estivesse a favor, eu era capaz até de mandar alguém falar (com os manifestantes), mas, como estou contra, tenho eu de vir falar e não pedir para alguém fazer isso no meu lugar", explicou.
Quando o governador apareceu nos jardins do Palácio, por volta das 16 horas, a correria entre os oficiais da PM responsáveis pela segurança foi grande. Ele dirigiu-se ao portão diante do qual estava o carro de som e, imediatamente, pediu que o abrissem, mas demorou alguns minutos até que aparecesse alguém com as chaves.
Mas o governador condenou a manifestação. "É uma violência contra a minha liberdade exigir que eu não cumpra uma coisa que tenho direito, um direito dado por 9,8 milhões de pessoas", disse Covas.
A manifestação de hoje teve outros incidentes. Por volta das 15 horas, servidores tentaram empurrar um caminhão da PM que obstruía a passagem do carro de som. Um manifestante foi preso e um policial, atendido no ambulatório do Palácio por ter sido agredido com uma paulada. A Tropa de Choque da PM não foi acionada, apesar de estar de prontidão no local.


