Rio, 11 (AE) - A oposição pode ir enrolando as faixas de "Fora FHC" e esquecer palavras de ordem sobre desemprego e baixos salários que, certamente, seriam usados na campanha eleitoral de 2000. Segundo cientistas políticos, a baixa popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso e a insatisfação com a política econômica atestada pelas pesquisas de opinião não devem influir na escolha de prefeitos e vereadores.
"Será uma eleição de síndico", compara o diretor-executivo do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. "Os prefeitos serão eleitos ou reeleitos de acordo com seu desempenho administrativo." Ou seja, o eleitor deverá estar menos preocupado com as grandes questões nacionais e mais voltado para temas como coleta de lixo, hospitais, escolas municipais e problemas urbanísticos. "O eleitor evoluiu e sabe que o prefeito não tem poder para resolver a inflação", aponta Montenegro.
Hoje, parece remota a possibilidade de que se repita o fenômeno de 1988, quando o assassinato, pela polícia, de três operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), redundou na eleição de prefeitos de esquerda em grandes capitais, como a da hoje deputada Luiza Erundina (PSB), então no PT, em São Paulo. "Nós ainda não tínhamos votado nem para presidente", lembra Montenegro. "Toda eleição ainda era muito voltada para o nível nacional, mas, agora, eleger prefeito nada tem a ver com os problemas do Brasil." Local - O cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), afirma que os dois últimos pleitos municipais, em 1992 e 1996, já demonstraram uma grande tendência de localizar o voto. "A agenda local deve predominar também nas próximas eleições", acredita Nicolau. "Afinal, desde o fim do regime militar, esta é a décima eleição, e a população já aprendeu a discernir as atribuições dos governantes."
Se os baixos níveis de popularidade do presidente se mantiverem até o ano que vem, prevêem os analistas, pode acontecer de os candidatos não demonstrarem tanto afinco em usar o nome e a imagem de Fernando Henrique, como foi nas eleições para governador, em 1998. Os eleitores do Rio, por exemplo, tiveram de aturar a patética disputa entre o candidato do PSDB, Luís Paulo Corrêa da Rocha, e o do PFL, César Maia, para pôr o presidente no palanque.
"Se fosse hoje, ninguém ia querer o presidente no palanque", fulmina Montenegro, argumentando, porém, que, em 1998, as eleições casadas para presidente e governador puxavam uma agenda nacional. A regionalização crescente da escolha de prefeitos, porém, pode deixar aliviados candidatos aliados a Fernando Henrique que prevejam uma futura "saia justa" quando tiverem seus nomes associados ao presidente por adversários.
Uma demonstração de como o presidente influi pouco na eleição municipal é o caso de José Serra, em São Paulo, que foi candidato em 1996 e nem passou para o segundo turno - isso quando o Plano Real navegava em águas mansas e o hoje ministro, amigo pessoal do presidente, era a personificação do governo federal. "A popularidade do presidente não contaminou essa eleição e, portanto, a impopularidade não deverá contaminar a próxima", diagnostica Nicolau.
Reeleição - Outro fator importante a ser considerado na eleição de 2000 é a possibilidade de reeleição, pela primeira vez, de prefeitos. "Cerca de 95% dos atuais prefeitos vão se candidatar à reeleição e, na verdade, vai haver um plebiscito em cinco mil municípios brasileiros para saber se os eleitores aprovaram as administrações realizadas", observa Montenegro.
É um quadro que, provavelmente, condenará maus administradores, como Celso Pitta (PTN), em São Paulo, e premiará candidatos pouco identificados com partidos e com a política tradicional, como Luís Paulo Conde (PFL), no Rio. "Ele parece um prefeito apolítico, um arquiteto que nada entende de política, e isso vira vantagem", exemplifica a socióloga Maria Tereza Monteiro, diretora da consultoria de marketing Retrato.
Na verdade, as eleições municipais é que podem interferir nas negociações para 2002. "Fechadas as urnas, o resultado dessa disputa será decisivo para a montagem do quadro político das eleições presidenciais", aponta o cientista político Rogério Schmitt, da Universidade de São Paulo (USP). Ele argumenta que a situação inédita na política nacional, de haver um presidente reeleito, altera a composição de forças em suas alianças.
Plano - "Na próxima disputa, Fernando Henrique não poderá ser candidato, e seus aliados começam a discutir se a aliança vai permanecer", diz ele. "O custo de manutenção da base de apoio vai crescer até 2002, lideranças precisarão buscar espaço e, nesse quadro, o peso do resultado da eleição municipal é grande."
O anúncio do Plano Plurianual (PPA), na opinião dos analistas, não deverá alterar de forma significativa a popularidade do presidente no curto prazo. "O quadro desfavorável só deverá se reverter quando a população sentir o efeito de medidas econômicas que reduzam a taxa de desemprego, os preços, e aumentem os salários", pondera Nicolau. O diretor do Ibope concorda. "O governo só vai se recuperar se houver medidas tão concretas para retomar a estabilidade como são concretos hoje, para a população, o desemprego e o aumento de preços."
Para Montenegro, as causas da insatisfação, apontadas pelo Ibope em sua última pesquisa - 45% queixaram-se do desemprego, 37% da inflação, e 24% dos baixos salários -, estão relacionadas ao desempenho ruim do governo no primeiro semestre, com aumento de combustíveis e remédios e denúncias de corrupção. "O governo se ancorou na estabilidade econômica e política", critica Montenegro. "Não há obras, saúde, escolas, enfim, outros fios de sustentação e, portanto, com a perda da estabilidade, abriu-se espaço para aquele filme de brigas internas e aumentos de preços, que o brasileiro já viu e detesta."

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