Brasília, 26 (AE) - Eles passaram 36 horas sentados dentro de ônibus, percorreram os cerca de 2,2 mil quilômetros que separam São Luís de Brasília, não se deixaram abater, apesar de cansados: acordaram ainda de madrugada para tomar banho e o café da manhã, enfrentar mais 40 quilômetros entre Valparaíso de Goiás (GO) e a Esplanada dos Ministérios e, finalmente, se juntar à Marcha dos Cem Mil e protestar contra o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Trata-se de um grupo maranhense formado por sindicalistas, professores federais, estudantes e desempregados. "A viagem é muito desgastante, mas vale à pena porque o objetivo é, no mínimo, fazer o governo federal mudar a política econômica e reduzir o nível de desemprego", resumiu o matemático e funcionário da Universidade Federal do Maranhão Rui Nacimento, de 44 anos.
A viagem começou na noite de segunda-feira (23). De São Luís, seguiram para Miranda do Norte (MA). Pararam para embarcar mais 50 "companheiros", operação repetida no Sul do Estado, em Iperatriz, e depois de cruzar a fronteira com o Tocantins - Barrolândia e Paraíso do Tocantins.
Um dos quatro ônibus quebrou e o conserto durou duas horas. Enquanto esperavam, usavam colchonetes e espumas para disputar o diminuto espaço reservador ao corredor dos veículos.
O líder da delegação e funcionário público federal filiado ao sindicato da categoria, Raimundo Diogo, de 32 anos, disse que toda a despesa foi paga pela entidade. Ao todo, gastaram algo em torno de R$ 35 mil.
Nas lanchonetes e restaurantes em que parararam ao longo da estrada, o uso do banheiro e da "ducha" é cobrado à parte e varia de acordo com o "luxo exigido". Um banho com água quente chega a custar 2,50 reais e o serviço completo - sanitários e higiene - dificilmente custa menos do que 5 reais.
"Como estavámos em cerca de 150 pessoas que iriam consumir uma grande quantidade de alimento, negociávamos com o gerente para não pagar os serviços de banheiro e banho", explicou Diogo. "O único problema é que, às vezes, faltava comida porque os restaurantes nem sempre estão preparados para atender um número tão grande de clientes", completou.
Um outro ônibus vindo do Maranhão, que se perdeu da delegação, não teve a mesma sorte. O eicho do veículo quebrou e os passageiros tiveram de esperar aproximadamente sete horas pelo conserto.
Esse problema foi superado, mas, quando chegaram em Tocantins, a estrada estava em obras e as placas de sinalização haviam sido retiradas do local. Seguiram numa rodovia secundária e, quilômetros depois, perceberam que estavam perdidos.
Retornaram ao local e, quando descobriram o caminho correto, tiveram de esperar por quase duas horas um outro veículo que também se perdera.
"Foi uma aventura, mas valeu à pena porque vamos demonstrar ao presidente Fernando Henrique a nossa insatistação com o seu governo", disse o estudante José Celso Lacerda, de 19 anos.
Apesar de a coordenação da Marcha dos Cem Mil ter orientado as "bases" para chegar em Brasília ontem (25), os maranhenses e delegações de outros Estados se anteciparam e terminaram a viagem na noite anterior. O grupo ficou instalado no Centro de Educação e Treinamento (CET) da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Indústria (CNTI) - havia mais 40 ônibus vindos de Minas Gerais, Maranhão, Bahia e vários outros Estados das Regiões Norte e Nordeste.
Os alojamentos são coletivos, porém, mais confortáveis do que os bancos dos ônibus. Há sauna, piscina e um refeitório grande.
O único problema é que o local fica há quase uma hora de Brasília. "Vamos logo, que ainda temos coisas para deliberar", disse, na noite de ontem, um dos coordenadores da delegação maranhense.
Depois de tomar um farto café - com café, leite, pão, manteiga, suco de laranja e frutas -, os manifestantes seguiram para a marcha. À tarde pareciam satisfeitos, apesar de ter de enfrentar mais 36 horas nos ônibus, e mais 2,2 mil quilômetros até São Luís.

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