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terça-feira, 24 de agosto de 1999
Por Mário Henrique Viana 
Brasília, 25 (AE) - Aos 15 anos, a baiana Mônica Barbosa Lima tem motivos de sobra para exigir melhores condições de vida. Ela chegou à capital federal há pouco mais de um ano - veio de Feira de Santana, sonhando arrumar um emprego - com a mãe, o pai, oito irmãs e dois irmãos. A família estabeleceu-se em Samambaia, uma pequena e pobre cidade-satélite de Brasília, e após seis meses, dividiu-se, sem perspectivas de um futuro melhor.
Hoje, com a mãe e cinco irmãs, Mônica mora na rodoviária, come de favor das lanchonetes da região e vive da mendicância. Seus bens se resumem a poucas mudas de roupa e cobertas. O pai, os irmãos e as outras irmãs voltaram para Feira de Santana. Hoje à tarde, enquanto os ruralistas preparavam-se para deixar a Esplanada dos Ministérios livre para a Marcha dos 100 Mil, Mônica contemplava o chão, abraçada à sua irmã Aldaíza, de três anos, que dormia. Elas estavam encostadas em uma lata de lixo, numa esquina em frente à rodoviária.
Ela diz que não vai se juntar aos manifestantes no protesto desta quinta-feira (26). Aliás, ela não sabe o que significa protestar, apesar de ter estudado até a sexta série na Bahia. "Não sei se gosto ou não do Fernando Henrique; eu só queria um emprego como doméstica", diz a jovem que em um dia lucrativo consegue juntar R$ 5,00. "Eu nunca parei pra pensar no futuro."
Sua falta de entusiasmo com o protesto organizado pela oposição parece ser compartilhada por muitos moradores de Brasília. O comerciante Josafá Macedo, dono de uma ótica nas imediações do centro da cidade, acha que a situação econômica do Brasil deveria estar melhor, mas não irá se juntar à marcha. "O povo está sendo arrochado e o governo tem feito o jogo do Fundo Monetário Internacional, mas é protesto lá e eu aqui."
Carlos Donizete da Silva, funcionário de uma rede de farmácias é outro que não troca seus afazeres diários para gritar contra o governo. "Tenho de trabalhar", justifica.
Nas estradas que dão acesso a Brasília, não há qualquer faixa de boas-vindas aos manifestantes. No Ginásio Nilson Nelson
cujo estacionamento deve ser um dos locais utilizados pelos mais de mil ônibus esperados na cidade, dezenas de auto-escolas e moto-escolas relizavam suas aulas rotineiras. Ao lado, o estacionamento do Estádio Mané Garrincha, outro local previsto para ser usado pelos veículos de fora, abrigava centenas de ônibus municipais, deixando pouquíssimas vagas livres.
Em frente ao Palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal, alguns funcionários cuidavam dos canteiros de flores, limpando, adubando e plantando mudas. Eles não pareciam temer os passos de uma suposta multidão sobre o caprichado jardim.


