Brasília, 25 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse a um pequeno grupo de produtores rurais e deputados que o governo não tem condições de melhorar a proposta de renegociação das dívidas dos agricultores neste momento, porque essa atitude poderia ser compreendida pelo mercado como uma demonstração de fragilidade, comprometendo a credibilidade do País.
O encontro, intermediado pelo deputado Xico Graziano (PSDB-SP), secretário-geral da Presidência da República no início do primeiro mandato do presidente, aconteceu no início da noite de ontem (24) e durou cerca de uma hora e meia. Além de Graziano, participaram do encontro os deputados Silas Brasileiro (PMDB-MG) e Dilceu Sperafico (PPB-PR), presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, cinco representantes dos produtores rurais que organizaram o "caminhonaço" e o ministro da Agricultura, Pratini de Morais.
Segundo o relato de um dos participantes dessa reunião, o presidente ouviu as ponderações dos produtores - que querem estender a carência de dois anos para o pagamento das parcelas da dívida renegociada aos agricultores com débitos de até R$ 200 mil - mas argumentou que a situação política e econômica do momento não permite que o governo vá além das concessões feitas até agora.
Fernando Henrique disse, segundo o relato, que um sinal de fragilidade do governo poderia resultar em especulações para pressionar a desvalorização do real. Ele lembrou que o governo teve de agir recentemente para evitar a desvalorização, colocando no mercado títulos pós-fixados com correção cambial e pagando juros altos pelos papéis pré-fixados.
Ainda segundo o relato de um dos participantes do encontro, o presidente ressaltou que sua firmeza diante do impasse não era uma atitude contra o movimento dos produtores, mas uma resposta ao questionamento político que resultou dele. Ele afirmou ainda que não cederia nem diante da ameaça de o movimento se juntar à Marcha dos 100 Mil organizada pela frente das oposições. O presidente disse não temer um desgaste maior de sua imagem, pois ela já estaria demasiadamente desgastada.
Os produtores apresentaram alguns números para tentar convencer o presidente de que a inclusão das dívidas de até R$ 200 mil aumentaria em pouco mais de 20% o custo do Tesouro, mas resultaria em um benefício proporcionalmente muito maior.
Eles disseram que a carência integral de dois anos para as dívidas de até R$ 10 mil beneficia cerca de 45% dos devedores que contribuem com menos de 2% da produção nacional e, se o mesmo benefício fosse estendido às dívidas de até R$ 200 mil, contemplaria 84% dos devedores que contribuem com 56% da produção.
Pratini - O ministro da Agricultura disse que o governo não poderia aceitar que esses devedores ficassem dois anos sem pagar nada, mas admitiu analisar melhor o problema das dívidas depois de estudar em detalhes as informações que estão sendo consolidadas pelo seu Ministério.
Os produtores ainda tentaram sensibilizar o presidente mencionando trabalhos acadêmicos que apontam uma transferência de R$ 9 bilhões da renda da agricultura para o consumo no primeiro ano do Plano Real. O presidente concordou, dizendo que a agricultura foi uma das âncoras do real, mas afirmou que não poderia melhorar a proposta enquanto o impacto político não estiver superado.
Ao final do encontro, em um clima mais descontraído, o presidente disse que compreendia a angústia dos produtores rurais porque já teve prejuízos plantando soja em sua fazenda de Minas Gerais.

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