Brasília, 29 (AE) - O governo federal já tinha montado um plano emergencial com os governadores para realizar uma grande operação, com a participação do Exército, para desobstruir várias rodovias brasileiras, consideradas artérias para o abastecimento de alimentos e combustíveis.
Os comandos do Exército no País foram avisados que a qualquer momento poderiam entrar em ação, mas as tropas seriam mobilizadas só se a negociação fracassasse. O plano foi abortado no início da tarde de hoje, quando o ministro da Justiça, José Carlos Dias, começou a receber relatórios das polícias Federal e Rodoviária Federal, mostrando que o movimento dos caminhoneiros começava a se dissipar.
A Força Aérea Brasileira (FAB) já tinha preparado um avião para o ministro José Carlos Dias viajar a São Paulo. O ministro sobrevoaria os pontos de maior obstrução e daria um telefonema ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que autorizaria imediatamente a participação do Exército em operações que já tinham sido estudadas de forma conjunta com as polícias federais e estaduais.
"Não houve necessidade de intervenção do Exército", anunciou hoje, aliviado, o ministro da Justiça, por volta de 17 horas. O ministro mostrou o relatório de 15h45 com a situação da greve em todo o País, que mostrava desobstrução total em São Paulo, especialmente nas regiões de Jacareí, Guararema e São José dos Campos, onde o trânsito continuava lento, mas fluindo quase normalmente. O ministro também recebeu informações do governador de São Paulo, Mário Covas, que sobrevoou os pontos em desobstrução.
São Paulo era a maior preocupação do governo, pois mais de 80% dos alimentos comercializados no País são transportados por caminhão e grande parte dos industrializados saem de São Paulo. O governo também considerava crítica a situação do abastecimento de combustíveis, que poderia entrar em colapso em algumas cidades se a greve durasse mais um dia.
O mesmo relatório mostrava que somente dois pontos estavam sendo considerados "críticos" pela Polícia Rodoviária. Era uma rodovia que corta a cidade de Sete Lagoas, em Minas Gerais, e um trevo em Araucária, no Paraná.
O ministro recebia relatórios a cada 20 minutos. José Carlos Dias não acredita que o governo tenha se tornado refém dos caminhoneiros ao ser obrigado a anunciar concessões durante a greve. "É muito difícil responder a uma pergunta como essas olhando só sob este aspecto", disse o ministro. "Tem que haver uma visão objetiva diante de uma situação nacional, em que é preciso ter a garantia do abastecimento". O ministro falou também sobre o perigo de falta de combustíveis em aeroportos e sobre desabastecimento de alimentos nos supermercados. "Não estamos em uma ditadura", disse o ministro, "e em um regime democrático se dialoga no momento da paraliasação", disse.
O ministro se recusou a entrar em detalhes sobre as concessões que poderiam ser feitas aos caminhoneiros, assunto que estava sendo discutido pelo ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. O ministro da Justiça não falou se poderá rever o sistema de pontuação de multas que levam à cassação da habilitação. O ministro disse que "o ideal" é que as reivindicações fossem discutidas antes da manifestação.

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