Brasília, 29 (AE) - A solução para o impasse instalado na quarta-feira entre o governo federal e os caminhoneiros começou a ser articulada na madrugada de hoje. Escalado para agir, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, manteve contatos telefônicos com o líder do movimento União Brasil Caminhoneiros, Nélio Botelho, intermediando uma solução que evitasse o desgaste do governo caso tivesse que usar o Exército para desimpedir as rodovias.
Antes da reunião do presidente Fernando Henrique Cardoso com os ministros para tratar do assunto, Dornelles relatou ao presidente o resultado de suas conversas e a disposição de Botelho para negociar em torno de uma pauta previamente acordada. O líder dos caminhoneiros aceitou suspender o bloqueio das estradas se o governo se demonstrasse disposto a conduzir suas reivindicações.
O governo então, por meio de Dornelles, colocou à disposição de Botelho um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), mas ele optou por um vôo de carreira, segundo contou ao Estado. Uma vez em Brasília, passou o dia em negociações telefônicas, dentro do gabinete de Dornelles, de onde só saiu para anunciar o acordo, no gabinete do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. Segundo o líder dos caminhoneiros, o que parecia um fracasso irreversível na quarta-feira, em São Paulo, tornou-se uma vitória do movimento.
Hoje, ao deixar a capital federal, o sindicalista declarou cumprida, com sucesso, sua missão. Ele acredita que o grupo constituído pelo governo vai dar solução a todos os pleitos, inclusive a correção da tabela de fretes. "Esse item depende das confederações e não poderia ser resolvido em 24 horas. Mas o grupo vai dar solução a isso também", disse Botelho.
Acordo - A minuta do acordo, que previa a formação de uma comissão negociadora para examinar mudança no Código de Trânsito (para avaliar mudança no critério de pontuação de infrações na carteira de todos os motoristas profissionais), redução do pedágio (de competência federal e estadual) e aferição das balanças rodoviárias, além do adiamento do aumento do óleo diesel programado para a próxima semana, foi discutida e aprovada por Fernando Henrique.
A avaliação política feita pelo governo é de que o ministro Padilha, alertado sobre a crescente insatisfação dos caminhoneiros desde maio, pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e pela Associação Nacional de Transporte de Carga (ANTC), não deu a devida importância ao problema. Quando o governo se mobilizou, o impasse já estava criado com o bloqueio de estradas essenciais para o movimento de cargas para os grandes centros.
O superintendente executivo da ANTC, Alfredo Perez, esteve pessoalmente com Padilha, relatando a insatisfação dos caminhoneiros com o crescente custo do transporte no Brasil, que subiu 62% desde 1994 por causa do preço do óleo diesel e do pedágio. O aumento de custos, explicou ele ao ministro, vinha sendo praticamente absorvido pelos caminhoneiros, porque a queda da atividade econômica reduziu a demanda pelo transporte de cargas.
O principal líder do movimento grevista, Nélio Botelho, também tentou sem sucesso agendar encontro com o ministro dos Transportes. A CNT e a ANTC então recorreram à Comissão de Transportes da Câmara dos Deputados para discutir o problema do pedágio e propor alguma solução. Uma das providências tomadas pela comissão foi pedir ao Ministério dos Transportes cópias dos contratos de concessão para exploração das rodovias federais, que nunca foram enviadas.
Na quarta-feira, já criado o impasse, o próprio Fernando Henrique chamou o presidente da CNT, Clésio Andrade, para uma conversa no Palácio do Planalto. Ouviu dele o diagnóstico que Padilha não se dispôs a ouvir: que o movimento é um movimento de base, apartidário, surgido em função das dificuldades resultantes dos elevados aumentos dos combustíveis.
Andrade sugeriu ao presidente a adoção de medidas que aliviassem o problema dos caminhoneiros: suspensão de novos aumentos para o diesel, redução dos pedágios nas rodovias federais, aumento de 20 para 40 pontos para suspensão da carteira de habilitação dos motoristas profissionais, além da criação de uma polícia especial para punir a corrupção existente dentro da Polícia Rodoviária. O presidente da CNT disse a Fernando Henrique que a corrupção dos policiais rodoviários é um dos maiores tormentos do caminhoneiro.

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