Monica, Starr e republicanos em pânico Do correspondente Paulo Sotero (assinatura obrigatória)
Washington, 01 (AE) - "Não esperem nenhuma bomba", disse nesta segunda-feira (01) o deputado William McCollum, um dos parlamentares que atuam como promotores no julgamento de impeachment do presidente norte-americano Bill Clinton antes do início do interrogatório de Monica Lewinsky.
Figura central do escândalo sexual que levou os republicanos a desencadear o segundo processo de remoção constitucional de um presidente na história dos Estados Unidos, Lewinsky passou o dia sendo interrogada - pela 23ª - sobre seu "affair" com Clinton.
Ela respondeu às perguntas dos promotores do impeachment e dos advogados de defesa de Clinton numa sala do hotel Mayflower, no centro de Washington. Dois senadores, um democrata e um republicano, acompanharam a sessão, que foi gravada em vídeo teipe e será mostrada aos demais senadores, a quem caberá a decisão final do julgamento.
Nada de novo se espera, tampouco dos depoimentos do advogado Vernon Jordan, amigo e conselheiro pessoal do presidente, e do jornalista Sindey Blumenthal, que trabalha na assessoria política de Clinton, que serão amanhã e depois de amanhã.
Como o depoimento de Monica sugere, o mais extraordinário da novela do impeachment não é o que poderá acontecer com Clinton, mas o que está ocorrendo com seus acusadores.
Tendo desafiado a vontade popular e insistido na destituição de um presidente eleito e reeleito, por causa de faltas derivadas de sua vida sexual que a maioria dos norte-americanos deplora mas não considera assunto de interesse público e está disposta a perdoar, os republicanos estão hoje na defensiva e divididos sobre como desmontar o circo que armaram em Washington.
Hoje, os advogados de Clinton ajudaram a sublinhar a surpreendente situação dos adversários do presidente apresentando uma moção à justiça federal na qual pediram a punição do promotor independente Kenneth Starr.
Um ex-juiz republicano que investiga a Casa Branca há quase cinco anos, Starr conduziu um inquérito de 10 meses sobre o caso Lewinsky e forneceu munição para a Câmara abrir o processo de impeachement contra Clinton.
A moção, assinada pelo advogado David Kendall, chefe da equipe de defensores do presidente, foi motivada pelo vazamento de uma informação ao New York Times por pessoas "associadas" a Starr, segundo as quais o promotor teria concluído ter autoridade legal para indiciar criminalmente Clinton na Justiça, independentemente do desfecho do julgamento do impeachment. O tema é uma caixa de pandora do direito constituicional americano.
Uma das pessoas mais impopulares hoje nos EUA, Starr disse que é "permaturo" para ele decidir se pode ou não indiciar um presidente em exerício na Justiça, mas não desmentiu a reportagem do Times, que causou consternação entre os republicanos. Kendall pediu à juíza federal que supervisiona o trabalho de Starr para impugnar o vazamento e censurar o promotor por violação das normas de segredo judicial sob as quais opera. Alguns meses atrás, o desacreditado Starr já recebera uma admoestação em termos similares, por causa de informações que vazaram para a imprensa durante sua investigação do escândalo sexual.
Com o veredicto do julgamento mais do que previsto - Clinton continuará na Casa Branca até o fim de seu mandato, em janeiro de 2001 - os republicanos estão preocupados agora em buscar um desfecho que proteja suas próprias reputações.
A senadora Susan Collins, republicana do Maine, por exemplo, já propôs duas soluções casuísticas. Na semana passada, ela sugeriu que os senadores dividissem a votação de cada artigo de impeachment em dois, pronunciando-se separadamente sobre a condenação de Clinton por maioria simples e sobre sua remoção do poder pela maioria qualificada de dois terços, ou 67 senadores, exigida pela Constituição.
A idéia foi rapidamente abandonada depois que senadores dos dois partidos lembraram a simpatizantes da idéia de Collins de que a Constituição estipula maioria de dois terços tanto para a condenação quanto para a destituição.
No domingo, a senadora Collins admitiu que sua proposta inicial não tinha futuro, mesmo que se admitisse sua criativa interpretação da regra constitucional do impeachment. Falando num programa de televisão, Collins reconheceu que se a votação fosse hoje não haveria maioria simples de 51 senadores para condenar o presidente pelos crimes de perjúrio e obstrução da justiça de que foi acusado pela Câmara de Representantes por conta das mentiras que contou para esconder as inconfessáveis sessões de sexo oral que Monica lhe proporcionou no corredor do banheiro e num estúdio anexo ao gabinete presidencial, em 11 encontros num período de 1,5 ano.
Com problemas para convencer os 55 senadores do partido conservador sobre os méritos das acusações contra Clinton, a liderança republicana discute agora um novo casuísmo sugerido por Collins.
Empenhanda em evitar a absolvição de Clinton, a senadora propôs que o julgamento termine sem um veredicto antes do próximo dia 12, o prazo estipulado na semana passada.
Em lugar de uma decisão clara e inequívoca, haveria um resolução na qual os senadores constatariam que Clinton praticou as faltas de que é acusado mas não tirariam a conclusão lógica desse fato e arquivariam o processo.
Essa fórmula, segundo Collins, registraria o repúdio da nação ao comportamento do presidente. Mas ela não despertou entusiasmo entre os próprios republicanos. E tem pouquíssimas chances de ser apoiada pelos democratas, que vêem o processo de impeachment cada vez mais como uma bonança política.
Com a popularidade dos republicanos em queda e a economia norte-americana em sua melhor fase em três décadas, os correligionários do presidente prepararam-se para a temporada eleitoral de novembro do ano que vem mais unidos do que nunca e cada dia mais confiantes em que conseguirão manter um democrata na Casa Branca - provavelmente a dobradinha formada pelo vice-presidente Albert Gore e o ex-senador William Bradley - e reconquistar o controle do Congresso, perdido em 1994.
Inspirado pelos mesmos cálculos e amparado por projeções de supervárits fiscais pelos próximos 15 anos, Clinton ofereceu hoje uma valiosa contribuição para o êxito de seu partido nas eleições do ano que vem sob a forma de uma proposta orçamentária de US$ 1,7 trilhão recheada de gastos com programas populares.





