Washington, 31 (AE) - Monica Lewinsky, o pivô do escândalo sexual que levou ao processo de impeachment contra o presidente Bill Clinton, prestará depoimento amanhã (01) sobre o caso pela 23º vez. Em tese, os interrogatórios de Monica e de duas outras testemunhas, esta semana, devem levar o julgamento do presidente americano à reta final.
Na semana passada, os 100 senadores, que atuam como jurados, estabeleceram um prazo de duas semanas para encerrar o julgamento de Clinton, acusado de ter cometido perjúrio e obstruído a Justiça para esconder seu affair com a ex-estagiária da Casa Branca.
Mas o fim do julgamento não esgotará a novela. Numa iniciativa que surpreendeu os próprios republicanos, assessores do promotor especial Kenneth Starr, que investiga Clinton, disseram ao New York Times que seu chefe concluiu ter autoridade constitucional para iniciar um processo criminal contra Clinton, independentemente do desfecho do julgamento de impeachment.
Para os aliados de Clinton, o momento do anúncio expôs mais uma vez o caráter de inquisição espanhola da ação do promotor especial. Embora deplore o comportamento pessoal de Clinton, a maioria dos americanos reprova ainda mais a atuação de Starr, considera o impeachment uma mera continuação da guerra entre republicanos e democratas, está absolutamente farta do assunto e apóia a permanência do líder no poder.
O problema é que a notícia reinicia a discussão sobre a constitucionalidade de processos criminais contra um presidente em exercício e tende a envenenar as relações entre os senadores republicanos e democratas. Em tese, a única maneira de punir-se um presidente por crimes é o impeachment. Mas a Suprema Corte dos EUA legitimou a discussão em 1996, quando decidiu que Clinton poderia, no exercício de seu mandato, ser alvo do processo por assédio sexual iniciado pela ex-funcionária do Estado de Arkansas, Paula Jones.
Há, em Washington, quem acredite que Starr já obteve o indiciamento de Clinton pelo Grande Júri "sob segredo judicial", uma modalidade de acusação permitida pela lei em certas circunstâncias. Nesse caso, o indiciamento seria revelado depois de Clinton deixar a Casa Branca, no dia 20 de janeiro de 2001.
Monica será interrogada por um dos deputados republicanos que atuam como promotores no julgamento. Depois, será a vez dos advogados de Clinton. Dois senadores, um democrata e um republicano, assistirão os interrogatórios, que serão gravados em vídeo, numa sala do hotel Mayflower, em Washington, onde Monica está hospedada.
Depois de amanhã será a vez do depoimento do advogado Vernon Jordan, amigo e conselheiro de Clinton, que ajudou Monica a buscar emprego em Nova York um mês antes da eclosão do escândalo. Na quarta-feira, o jornalista Sidney Blumenthal, conselheiro do presidente, será interrogado.
Jordan e Blumenthal compareceram cinco e três vezes, respectivamente, perante o Grande Júri, que investigou o caso. Não se espera que os depoimentos acrescentem novas informações ou alterem o desfecho do julgamento. Até senadores republicanos já admitem que Clinton sobreviverá e completará os dois anos que lhe restam de mandato.
Não está claro se o julgamento terminará com a votação dos dois artigos de impeachment, que precisam ser aprovados por 67 votos - 12 menos do que os republicanos têm no Senado. Uma nova alternativa, que começou a ser discutida no fim de semana, seria a aprovação de uma resolução pela qual os senadores puniriam Clinton, afirmando que, de fato, ele mentiu sob juramento e obstruiu a Justiça, mas ao mesmo tempo encerraria o julgamento sem condenar nem inocentar o presidente.
A solução não é das mais elegantes, mas mostra o dilema que os republicanos criaram para o Congresso e para si próprios ao acionar a bomba nuclear do processo político, ou seja, o processo de impeachment, para tentar remover da Casa Branca um presidente eleito duas vezes pelo povo.





