Davos, 31 (AE) - Será melhor o governo brasileiro criar uma política própria para enfrentar a crise, em vez de seguir os conselhos do Fundo Monetário Internacional (FMI), disse o diretor do Instituto Harvard para o Desenvolvimento Internacional, professor Jeffrey Sachs.
Ele fez esse comentário ao saber que uma nova missão do FMI estava indo ao Brasil para recolher dados e discutir políticas com a equipe econômica.
O Brasil pode precisar de empréstimos da instituição, reconheceu Sachs, mas não de sua orientação econômica.
Embora as reservas do Brasil tenham caído muito, desde a eclosão da crise na Rússia, será mais prudente o Banco Central evitar a centralização do câmbio, segundo o professor de Harvard.
Se o governo pressentir dificuldades para pagamento de compromissos, a solução prudente, de acordo com Sachs, será buscar uma renegociação com os bancos credores, evitando uma situação de conflito.
Sachs tem criticado severamente o FMI desde a emergência da crise financeira na µsia. Naquela ocasião, condenou as políticas de juros altos e austeridade fiscal sugeridas para os países da região. Essas políticas, segundo ele, tenderiam a agravar os problemas. Outros economistas fizeram comentários semelhantes, lembrando que a maioria dos países da µsia tinha orçamentos equilibrados e a crise financeira tinha raízes diferentes das tradicionais.
No caso brasileiro, o erro básico do FMI, segundo Sachs, foi o de ter apoiado a decisão do governo de conservar o câmbio valorizado. Essa política implicou a manutenção de juros altos, como forma de atrair capitais e de evitar problemas no balanço de pagamentos. A insistência nessa política, disse Jeffrey Sachs, acabou custando ao Brasil a queima de US$ 45 bilhões de reservas, sem que o câmbio, afinal, tenha sido sustentado.
Agora, segundo Sachs, o País provavelmente enfrentará um período de profunda recessão antes de começar a recuperar-se. Por algum tempo ainda, os juros deverão ser mantidos altos para limitar o repique inflacionário.
Esses comentários foram feitos por Sachs num dos corredores do centro de convenções de Davos, onde se realiza a reunião anual do Fórum Econômico Internacional.
Pouco antes, num dos maiores salões de conferências, o vice- diretor gerente do FMI, Stanley Fischer, havia participado de um debate sobre prevenção e tratamento de crises financeiras. Em alguns casos, disse Fischer respondendo a uma pergunta, o Fundo se dispôs a apoiar países com câmbio sobrevalorizado - mas desde que os governos se comprometessem com as políticas compatíveis com essa decisão.
Mas o FMI, segundo Sachs, não se limitou a apoiar, com reservas, a política defendida pelo governo brasileiro. O pessoal do FMI foi além disso e elogiou publicamente essa política, disse o economista ao saber do comentário de Fischer.
Para o diretor do Instituto de Economia Internacional, dos Estados Unidos, professor C. Fred Bergsten, o governo brasileiro deveria ter resolvido há muito mais tempo o problema do câmbio sobrevalorizado. A depreciação cambial, disse Bergsten, acelerou-se nos últimos dois anos, mas foi insuficiente para eliminar o desajuste. Agora, com a crise cambial e os mercados abalados pela insegurança, a instabilidade ainda poderá prolongar-se e o país, em sua avaliação, ainda arcará com o preço de uma recessão.
As medidas de ajuste cambial, comentou Bergsten, foram aprovadas na maior parte e o programa poderá andar, mas agora, com a crise, o mercado está querendo mais que isso. Também isto é parte do preço a pagar pelo atraso na solução dos principais problemas.
Segundo Bergsten, o Banco Central poderá até restabelecer o sistema de bandas, isto é, de faixas de flutuação cambial, mas só depois de vencida a fase de maior instabilidade. Por enquanto, não há como saber em que faixa o câmbio poderá acomodar-se.
Bergsten também mostrou ceticismo em relação às vantagens de um currency board, ou conselho da moeda, para cuidar de uma política de câmbio fixo no estilo da Argentina ou de Hong Kong. A adoção desse regime tem sido sugerida, nos últimos dias, por alguns economistas, entre os quais Rudiger Dornbusch.
Mas uma política desse tipo, argumentou Bergsten, não pode ser definitiva e os argentinos talvez tenham de mudar seu sistema numa data não muito remota.
Pode-se discutir até que ponto o câmbio sobrevalorizado explica a atual crise brasileira. Para alguns especialistas brasileiros, incluídos economistas da Confederação Nacional da Indústria, o desajuste cambial se havia reduzido consideravelmente nos últimos dois anos. Poderia haver um resíduo corrigível neste ano, sem maior dificuldade, se nenhum outro tipo de choque ocorresse.
Mesmo em Davos, vários economistas têm dado maior ênfase a outro fator, a demora na solução do problema fiscal, com a consequente erosão da credibilidade oficial. Por enquanto, de toda forma, os ganhadores da aposta são os que vinham apontando o risco de uma grave crise no Brasil - entre eles, Jeffrey Sachs e Rudiger Dornbusch.





