Davos, Suíça, 01 (AE) - Os bancos privados deveriam participar do pacote de ajuda financeira ao Brasil, disseram hoje o megainvestidor George Soros e o professor de Harvard Jeffrey Sachs. Financiamentos em dólares podem ser mais baratos para o governo brasileiro do que empréstimos em reais, neste momento, afirmou Soros. Se os bancos entrarem no acordo, haverá espaço para a redução dos juros no mercado brasileiro, argumentou.
Sachs disse, horas depois, concordar com o ponto-de-vista de Soros e sugeriu que Brasília negocie diretamente com o sistema financeiro internacional, sem depender de intermediários. A idéia foi recebida com menos entusiasmo pelo diretor-gerente do Instituto de Finança Internacional, com sede nos Estados Unidos - uma entidade mantida pela nata do sitema financeiro. Segundo o diretor-gerente da entidade, Charles Dallara, não se pode esperar que os funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do governo brasileiro se fechem numa sala, preparem um plano e as instituições financeiras simplesmente compareçam com o dinheiro. Elas deveriam participar das discussões do novo plano de ajuste, segundo Dallara, antes de se comprometer com um pacote de empréstimos.
Soros também sugeriu que o Banco Central evite o controle da saída de capitais. Se as autoridades quisessem seguir esse caminho, ressalvou, deveriam tê-lo feito antes. Agora, a solução correta, segundo ele, é dar ao mercado, com toda a clareza, a tranquilidade de que não haverá esse tipo de intervenção. "Acho até que o governo já fez isso, ao eliminar os mecanismos de controle, e esse é um lance que eu aplaudo", acrescentou, "porque, quando há corrida aos bancos e contra a moeda, é preciso garantir às pessoas que nada há que recear."
Socorro urgente - Não se pode perder tempo e este é o momento certo para a mobilização dos financiamentos, disse George Soros. O Brasil, segundo ele, está pronto para receber e utilizar o apoio financeiro. O caso brasileiro, disse, é bem diferente do russo e o risco de por dinheiro no país seria muito baixo, afirmou. Ele justificou esse ponto de vista com três argumentos: tudo que se podia fazer de errado foi feito; o real passou de supervalorizado a subvalorizado e poderá recuperar-se nos próximos tempos; a maior parte das medidas necessárias ao ajuste fiscal foi aprovada.
Além disso, a depreciação cambial produzirá alguma inflação - "digamos, uns 15%" - e isso facilitará o equilíbrio das contas públicas, porque os impostos são recolhidos desde o começo do ano, mas as despesas são programadas para o ano todo. Com a inflação, parte do dispêndio será corroída. Entenda-se: George Soros não fez a apologia da inflação. Apenas mostrou que, já que o aumento de preços será maior que no ano passado, alguma vantagem fiscal poderá ser obtida.
A corrida aos bancos na sexta-feira e a forte especulação contra a moeda mostram que o tempo é escasso, de acordo com Soros. A negociação para atrair os bancos poderá consumir algum tempo, admitiu, mas alguns fatores deverão facilitar as decisões. Para começar, já existe um pacote de ajuda de US$ 41 bilhões acordado com o FMI e com governos de países ricos. Segundo ele, não será necessário acrescentar muito dinheiro ao pacote - mas preferiu não citar cifras. Além disso, o sistema bancário já tirou do Brasil o dinheiro que podia, porque a crise brasileira, observou Soros, foi a mais anunciada da história recente. Como os bancos diminuíram muito o risco-país, há espaço
agora, para que eles aumentem de novo sua participação no mercado brasileiro. Não se pode ordenar às instituições que participem, ressalvou, mas 40% dos bancos brasileiros estão sob controle estrangeiro e devem ter interesse em participar da solução do problema, argumentou. O mesmo interesse, acrescentou, devem ter outros bancos com presença no País.
Sachs havia dito, um dia antes, que seria um erro perigoso tentar o controle do movimento de capitais para enfrentar a crise. O caminho correto, segundo ele, seria um entendimento com os bancos credores. Ele reafirmou essa posição hoje, ao comentar a sugestão de Soros de participação do sistema financeiro privado. A discussão, segundo ele, tanto pode envolver uma renegociação quanto o fornecimento de dinheiro novo. O efeito líquido, afirmou, será o mesmo.
O controle de capitais, segundo Soros, é aceitável em alguns casos, por um período breve, mas este seria o momento errado para adotar essa política no Brasil. O empresário aproveitou a entrevista para dar o troco ao primeiro-ministro da Malásia, Mahathir bin Mohamad, que continua a responsabilizá-lo pela crise em seu país. Segundo Soros, Mathathir é seu melhor agente de publicidade não pago e também o melhor propagandista dos mercados e da democracia, por mostrar quanto é ruim, politica e economicamente, o sistema oposto. Além disso, Mahathir, afirmou Soros, adotou o controle de capitais para favorecer seus aliados políticos.
Novo sistema - O FMI, segundo Soros, deve assumir o papel de emprestador de última instância, desempenhando um dos papéis normalmente exercidos pelos bancos centrais. Para exercer essa função, porém, deverá estabelecer critérios de classificação para distinguir os "bons sujeitos" dos "maus sujeitos", isto é, países comprometidos ou não com políticas adequadas. Uma classificação bipolar, admitiu, pode ser muito rígida. Será melhor, portanto, estabelecer vários graus de qualidade para as políticas econõmicas. O Fundo, acrescentou, não se confundirá com as agências de classificação de risco, porque continuará a ser uma instituição diretamente envolvida no financiamento.
O novo sistema, segundo Soros, deverá eliminar ou reduzir substancialmente o chamado risco moral, isto é, a garantia de que uma instituição de governo, como o Banco Central, socorrerá quem se envolver em maus negócios. Essa garantia tem sido um estímulo a empréstimos concedidos sem cuidado, além de resultar, em geral, numa socialização das perdas: na hora da crise, os contribuintes acabam sendo chamados para custear o salvamento de quem se envolveu em maus negócios.
Será necessário, nos casos extremos de má política, deixar que os perdedores quebrem. Além disso, será conveniente eliminar a assimetria no tratamento aos bancos doadores de empréstimos e aos países tomadores de dinheiro.
Critérios para elevar a segurança do sistema financeiro - como a imposição de maior disciplina aos bancos - foram discutidas em várias ocasiões, nos últimos dias, durante a reunião do Fórum Econõmico Mundial. O debate se intensificou no ano passado, como uma das consequências da crise financeira internacional, envolvendo o FMI e o Banco Mundial, governos do mundo rico e especialistas em finanças, como George Soros. O financista evitou comentários detalhados sobre as perspectivas russas, mas indicou que a situação continua confusa, sem que as autoridades tenham definido caminhos para tentar a superação da crise.
Soros participa de um fundo de investimento na Rússia e vem tentando,segundo afirmou, torná-lo lucrativo. Esta será sua melhor contribuição ao país para sair das dificuldades, segundo contou ter dito ao primeiro-ministro russo nos últimos dias.

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