FHC nega confisco, calote e feriado bancário Por Regina Terraz, Fred Ferreira e Renata Rondino
São Paulo, 29 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso tentou hoje, durante cerimônia de inauguração da nova sede da Rede Globo, em São Paulo, tranquilizar a população a respeito dos boatos que dominam o mercado desde a tarde de quinta-feira, sobre a possibilidade de decretação de feriado bancário na segunda-feira e confisco de recursos depositados em conta corrente e aplicaçäes. "Não haverá feriado bancário nenhum, não há nenhum plano sendo elaborado, eu não seria homem de fazer confiscos, fechar contas de repente, seria uma traição ao povo brasileiro, ao meu passado, aos milhäes de votos que recebi", afirmou. "Eu mais uma vez peço aos brasileiros que não vão na onda de gente que quer atrapalhar o País, fiquem tranquilos que não vai acontecer feriado bancário nenhum."
Mais tarde, antes de encontro com o governador Mário Covas, no Palácio dos Bandeirantes, o presidente recebeu informaçäes de Brasília, segundo as quais a população continuava inquieta, por isso resolveu voltar à carga, dessa vez ainda mais incisivo: "Nós hoje temos dificuldades na área do dólar, há especuladores. Estão subindo os preços porque hoje é o último dia do mês e é sexta-feira. Tudo especulação. Pois bem, que a população não caia nesta. Porque quando o dólar cair quem vai perder não é o especulador que vende primeiro é o pobre povo que comprou alto. É preciso ter calma e entender esses mecanismos e evitar que o Brasil, que levou tantos anos criando uma economia do real, que a população que pode viver melhor e com mais tranquilidade que agora por causa de umas pessoas chacais, digamos assim, que só querem saber de certos momentos explorar as economias da população."
Segundo o presidente "não tem nenhum sentido que se façam filas em bancos", porque "os que estão nas filas de bancos ou estiveram vão ter que voltar na segunda-feira para devolver o dinheiro porque não vai acontecer nada".
Para o presidente, "é impatriótico e criminoso ficar dizendo que vai haver isso ou aquilo". Ele pediu que emissoras de rádio e televisão alertassem a população. "Há pessoas que chegam às filas dos bancos e dizem que precisam tirar depressa porque vai haver feriado, que vai haver plano: é mentira; é preciso que o Brasil volte a sua normalidade e vamos deixar que essa questão do dólar, da especulação, fique aos cuidados do Banco Central."
Fernando Henrique pediu às pessoas que não efetuem saque de dinheiro nos bancos. "Faço um apelo a esses boateiros que pensem no País, não haverá nada disso, tudo o que nós estamos fazendo é às claras, dentro das regras democráticas, com muita confiança no Brasil."
O governo, afirmou, não pretende declarar moratória da dívida interna. A informação de que a União poderia deixar de honrar sua dívida parte de pessoas "desinformadas ou tão bem informadas que querem ganhar mais e fazem boato para ganhar no mercado". O governo está disposto a lutar para que a inflação não volte. Para isso, disse, o Congresso já aprovou o ajuste fiscal e haverá cortes nas despesas da União.
O presidente garantiu que não irá criar nenhum instrumento especial de controle dos preços. Fernando Henrique afirmou ser contra o tabelamento de preços pelo governo, medida que, na sua opinião, é ultrapassada. Segundo ele, esta tarefa cabe aos brasileiros. "O governo não está querendo a volta do passado de controle de preços, porque isso não funciona, os brasileiros saberão, no mercado, verificar onde há preços mais baratos e onde não tem."
A fiscalização dos preços, de acordo com o presidente, deve partir da população. "Quando houver abuso, a população tem o recurso do Procon, tem os instrumentos legais."
Em relação ao dólar, o presidente voltou a frisar que não vai intervir no mercado de câmbio. "O dólar vai chegar aonde quiser e vai voltar; isso é especulação e nós não vamos ficar nervosos só por causa da especulação.", disse. "A moeda está flutuando, é um problema entre setores particulares, as reservas não são afetadas porque o Banco Central não está vendendo dólares", continuou. "Esses dólares que sobem, que baixam, que dizem que saem por aqui, por ali, não são do governo, são de particulares."
Lágrimas - "A crise existe, mas não podemos deixar que ela nos domine", afirmou o presidente, durante discurso de improviso para cerca de 300 convidados. Ainda no discurso, ele parafraseou a declaração do ex-primeiro-ministro da Grã Bretanha, Winston Churchill, "Só tenho a oferecer sangue, suor e lágrimas", declarada durante a 2ª Guerra Mundial, ao dizer que tem a oferecer suor e lágrimas ao povo brasileiro. "Sangue não, suor e lágrimas sim", afirmou. "Lágrimas por não termos feito já o que poderíamos ter feito; suor porque temos certeza de que vamos fazer o que é necessário para que o Brasil continue a ser próspero", disse, referindo-se à crise financeira.
Participaram da cerimônia o vice-presidente, Marco Maciel, o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), e da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB), além de oito ministros: da Saúde, José Serra, da Casa Civil, Clóvis Carvalho, das Comunicaçäes, Pimenta da Veiga, da Ciência e Tecnologia, Bresser Pereira, da Cultura, Francisco Weffort, dos Esportes e Turismo, Rafael Grecca e o secretário de Estado de Comunicação de Governo, Andrea Matarazzo. O governador Mário Covas (PSDB), por estar se recuperando de uma cirurgia, antecipou a visita e gravou um pronunciamento que foi transmitido durante a cerimônia.





