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sexta-feira, 29 de janeiro de 1999
Por Rolf Kuntz 
Davos, Suíça, 29 (AE) - A crise brasileira confirma a necessidade, segundo o chanceler argentino Guido di Tella, de buscar a coordenação das políticas macroeconômicas no Mercosul. "Até agora, temos conversado apenas ligeiramente sobre o assunto", disse o ministro. "É tempo de aprofundar a discussão." A idéia da coordenação é razoável, comentou mais tarde o ministro brasileiro das Relaçäes Exteriores, Luiz Felipe Lampreia.
A coordenação, disse o ministro Di Tella, deve cobrir as políticas macroeconômicas em todos os seus aspectos. Isto inclui as políticas fiscal, monetária e de câmbio. O governo argentino tem proposto um esforço de coordenação desde o comço da experiência do Mercosul. Há mais de um ano, o presidente Carlos Menem avançou nas propostas, defendendo a adoção de moeda única para o Mercosul. Nos últimos dias, o ex-ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, empenhou-se em mostrar a conveniência, para o Brasil, de um regime cambial como o da Argentina, com câmbio fixo e um conselho da moeda (currency board).
A coordenação independe, porém, da mudança do regime cambial. O tema nem foi mencionado, hoje, pelo chanceler Di Tella. O empresário Santiago Soldati, presidente da Sociedade Comercial de Plata e um dos participantes de um painel sobre a América Latina, propôs para o Mercosul um acordo semelhante ao de Maastricht. Esse acordo fixou as condiçäes, em termos de contas públicas, para os países candidatos a participar da União Monetária Européia. Di Tella foi mais moderado em sua proposta. Segundo disse, o importante, por enquanto, é avançar no rumo da coordenação. Depois disso caberá discutir, se houver interesse, algo como um Tratado de Maastricht para a região.
Coube a Di Tella e a Soldati, juntamente com o secretário das Finanças do México, José Gurría Trevino, e a executiva principal do Banco Santander de Investimento, da Espanha, Ana Botin, reafirmar num painel as diferenças entre América Latina e µsia. Coube a esse grupo, também, a tarefa de manifestar confiança na recuperação do Brasil. Nenhum brasileiro participou da mesa como debatedor. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, permaneceu no programa até hoje cedo, embora se soubesse desde o dia anterior que ele não viria. O único brasileiro na mesa tinha a função de moderador: era o reitor da Universidade de São Paulo, Jacques Marcovitch.
Os deveres de boa vizinhança foram escrupulosamente cumpridos, embora houvesse, num ou noutro comentário, alguma referência discreta aos desacertos da política brasileira - principalmente aos problemas das contas públicas.
Noutra sessão, sobre "Como Tratar o Cassino do Capitalismo Global", as referências ao Brasil foram menos gentis. O presidente do Banco Central do México, Guillermo Ortiz Martínez, procurou deixar bem clara a diferença entre uma economia com fundamentos sólidos e outra mal administrada. A atual crise brasileira, observou Ortiz, repercutiu no México apenas por algumas horas. O mercado, segundo ele, percebeu logo a solidez da situação mexicana. Sem usar as mesmas palavras, foi o troco do que disseram os principais funcionários da equipe econämica, há quatro anos: "O Brasil não é o México". Ortiz Martínez, assim como Gurría, teve a oportunidade de mostrar que o México não é o Brasil.
O megaespeculador George Soros repetiu críticas dos últimos dias, dizendo que o governo brasileiro errou em tudo em que podia errar, a partir do aumento da faixa de flutuação do real. Aproveitou para criticar o Fundo Monetário Internacional, por sugerir suporte financeiro do FMI e do Grupo dos 7 para apressar a redução de juros no Brasil.
Hoje cedo alguém lembrou, numa reunião, uma piada do subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers: que tal mudar o nome da moeda brasileira para Real.com, como se fosse uma moeda virtual?
Um funcionário norte-americano tratou do problema com menos humorismo: o problema brasileiro, resumiu, é político e inclui a falta de liderança do presidente da República. Há pouco tempo esse comentário dificilmente seria ouvido, nos mesmos círculos, de um funcionário de Washington.


