Brasília, 14 (AE) - O pistoleiro Maurício Novaes, o ``Chapéu de Couro', confirmou hoje à comissão de sindicância criada na Câmara para apurar o assassinato da deputada Ceci Cunha (PSDB- AL), que o deputado Talvane Albuquerque (sem partido-AL) o contratou para matar o deputado Augusto Farias (PFL-AL). ``Chapéu de Couro' não falou à imprensa e chegou à sala do depoimento usando uma camisa xadrez, uma corrente no pescoço e um boné azul sem inscrição.
Ao ver fotógrafos, sorriu, e trocou de boné - pôs um branco -, com a inscrição ``Mano Governo, Ceci Vice'. O relator da comissão, Robson Tuma (PFL-SP), afirmou que, no relatório, que deve estar pronto na quarta-feira (20), vai pedir para o ministro da Justiça, Renan Calheiros, intervir com a Polícia Federal (PF) na investigação do crime. Hoje, Tuma acusou de ``incompetente' o inquérito de responsabilidade do delegado Arnaldo Carvalho, que comanda a equipe mista civil-federal investigativa do crime, em Maceió. ``Do jeito que o inquérito está andando, não vai chegar a lugar nenhum', afirmou.
De acordo com Tuma, o delegado não tomou ``providências básicas que qualquer inquérito precisa seguir'. ``O relatório é primário e há erros grosseiros', contou. Um dos erros apontados é o fato de o jardineiro Ironildo, que teria visto os assassinos de Ceci, não ter tido o depoimento anexado ao inquérito policial. Outro, que um carro encontrado incendiado um dia depois do crime ter sido dito como usado pelos criminosos sem haver nenhum documento comprovando a quem pertencia o automóvel.
Apesar das críticas dos parlamentares, na semana passada, contudo, quando o inquérito foi entregue à comissão, o superintendente da PF, Vicente Chelotti, elogiou o trabalho da Polícia Civil e afirmou que o inquérito estava quase concluído.
``Tudo indica para que o principal suspeito de mandante do crime seja o deputado Talvane Albuquerque', afirmou Chelotti.
``Ele, então, nunca leu o relatório para ter afirmado que o inquérito estava quase concluído', afirmou Tuma. Segundo Chelotti, só faltava, ``para dar um ponto final ao caso', prender os três assessores de Albuquerque, suspeitos de executores do crime, que estão foragidos desde o dia 18, com prisão preventiva decretada.
Ainda para tentar comprovar a ``pobreza' do inquérito, o deputado Luiz Eduardo Greenhalg (PT-SP), membro da comissão de sindicância, disse que ``Chapéu de Couro' disse um outro nome de um assessor de Albuquerque. Além de Alécio César Alves, Jadielson Barbosa da Silva e José Bezerra da Silva, teria estado junto com Albuquerque no dia da encomenda do crime Mendonça Medeiros da Silva.
Hoje, 60 homens da Polícia Federal estavam fazendo a segurança dos depoentes no inquérito - principalmente do mais esperado, considerado testemunha-chave do caso, ``Chapeú de Couro'. O pistoleiro também tinha prestado depoimento à PF em São Paulo há quinze dias, acusando Albuquerque de tê-lo contratado para matar Farias.
``Chapéu de Couro' teria desistido do assassinato por encomenda por não querer se envolver com investigação federal e procurado Farias para denunciar a intenção de Albuquerque. No depoimento à comissão, segundo os parlamentares, o pistoleiro chorou quando contou que a própria mãe estava muito doente e tinha mudado da vida de matador quando Albuquerque pediu que ele matasse Farias.
Um dos policiais federais enviados a Alagoas afirmou que a condução do inquérito criticada por Tuma não está ``de se jogar fora'. O problema, segundo ele, é que há ``pressões de vários lados' para evitar que o inquérito ``vá longe' - no real mandante do assassinato.
``Em Alagoas, há muita coisa protegida que ninguém chega perto, ou você acha que o PC foi morto pela amante?', questionou. O ex-tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias, e a namorada dele, Susana Marcolino, foram encontrados mortos em Maceió, há dois anos e meio.
De acordo com o corregedor-geral da Câmara e presidente da comissão, Severino Cavalcanti (PPB-CE), a crítica de Tuma não tem relação com o objetivo da comissão. ``Estamos trabalhando para investigar se houve quebra no decoro parlamentar de algum deputado nesse crime', destacou. ``Mas frisamos que esse relatório da polícia tem de ser refeito.' A quebra do decoro pode ser pelo fato de Albuquerque ter ou ter tido algum relacionamento com um pistoleiro de aluguel - mesmo que o inquérito policial não chegue a nenhuma conclusão sobre o assassinato de Ceci.
Além do depoimento de ``Chapéu de Couro', foram ouvidas hoje a prefeita de Anadia (PL), Marlene Fidelis, que disse ser Albuquerque ``incapaz de matar uma mosca'; o policial Jorge Farias, que teria agido como intermediário no contato do pistoleiro com Augusto Farias; o segundo suplente da coligação que elegeu Ceci, deputado Elenildo Ribeiro; o senador Teotônio Vilela Filho (PSDB- AL), presidente nacional tucano; o agente ``Diamantino', da PF, e o delegado Carvalho.





