Bangcoc, 14 (AE) - A princípio, a reação de pânico em cadeia dos mercados globais à desvalorização do real parecia evocar um replay da desvalorização do rublo - acoplada a uma moratória - em agosto de 1998.
Não é o que está acontecendo - pelo menos por enquanto.
Há meses, banqueiros e investidores de Tóquio a Hong Kong e de Cingapura a Kuala Lumpur vinham prevendo uma ``correção' do real - que consideravam supervalorizado.
O secretário das Finanças de Hong Kong, Donald Tsang, resumiu nesta quinta-feira (14) o consenso na Ásia: ``A situação no Brasil é conhecida de todos, nos últimos meses. Tanto o FMI quanto as autoridades norte-americanas estão prestando assistência. Por isso eu acho que o contágio pode não ser tão grande.'
Hoje, pelo menos, as Bolsas de Hong Kong, Taipé, Cingapura, Jacarta, Bangcoc, Kuala Lumpur e Seul caíram apenas ligeiramente. E o índice Nikkei em Tóquio até subiu 2,5% - com o Japão inaugurando um novo governo de coalizão e o iene subindo em relação ao dólar.
A percepção do Brasil nas grandes capitais da Ásia é de mais uma economia em desenvolvimento atropelada pela ``força cega' da globalização - como a define o ministro indonésio das Relações Exteriores, Ali Alatas. Ou seja, o país é visto como mais um em uma longa lista, enfrentando uma crise de confiança face à ditadura dos mercados. Isso leva muita gente a pensar que a desvalorização não é necessariamente um ajuste, mas o possível prenúncio de uma hecatombe do real - como aconteceu com baht, rúpia, ringgit, won e rublo.
Para os asiáticos, nem mesmo o pacote do FMI foi capaz de impedir a desvalorização - o que diz volumes sobre a credibilidade do FMI, nula na Ásia depois de fracassos monumentais como Indonésia e Rússia. Executivos do Bangkok Bank, por exemplo, reconhecem que o principal problema do Brasil é fluxo de capital. Mas cogitam se a desvalorização vai mudar a paisagem. Não funcionou na Tailândia em 1997 e na Rússia em 1998.
Em um planeta onde imagem é tudo, o efeito mais brutal da desvalorização é o de provocar a temida crise de confiança.
Banqueiros em Bangcoc, Cingapura e Hong Kong lembram que empresas em toda a Ásia não puderam lucrar com um câmbio mais competitivo porque suas desvalorizações arruinaram com sua estrutura corporativa. Muitas dessas empresas terminaram em bancarrota.
Os mesmos banqueiros temem que se no Brasil repetir-se o mesmo cenário de Ásia e Rússia, o contágio poderá ser global - por causa de interligações comerciais e bancárias, o efeito ``debandada da horda' que acelerou a crise asiática em 1997, e o fato de que investidores e especuladores retiram enormes massas de capital de países emergentes.
Assim como Estados Unidos e Europa temem um contágio de vizinhos latino-americanos do Brasil, os asiáticos temem acima de tudo os efeitos negativos em Hong Kong e China.
Como observa o lendário consultor de investimentos Marc Faber, em Hong Kong, uma espiral negativa do real poderá ameaçar seriamente os controles chineses de fluxo de capital, e deixará a âncora entre o dólar de Hong Kong e o dólar americano à beira do abismo - à mercê de ataques de fundos hedge.
Em xeque, acima de tudo, está o próprio Evangelho da globalização - contestado em inúmeras latitudes da Ásia, da Malásia do ``anti- colonialista' Mahathir à própria Hong Kong, a capital do capitalismo. A mídia planetária mais uma vez será palco de um dilúvio retórico exigindo que se mude as regras do jogo financeiro - por meio da chamada ``nova arquitetura financeira global' evocada por Bill Clinton ou Tony Blair. É o que se pede na Ásia há meses - em reuniões da Asean, da Apec, do Forum Econômico Mundial em Cingapura.
Mas os asiáticos, agora experts em crise, já cogitam com alguns meses de avanço. Para eles, se o governo brasileiro chegar à conclusão de que ao invés da globalização prefere se tornar um espectador apenas relativamente envolvido, a globalização como doutrina americana para o final do milênio poderá estar a caminho de seu enterro.





