Washington, 14 (AE) - O temor sobre as repercussões de um colapso da economia brasileira na América Latina e outras economias emergentes operou a favor do País durante a negociação do acordo de estabilização fiscal com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em novembro.
Com os mercados de capitais sob o efeito do baque provocado pela declaração de moratória pela Rússia, em agosto, a possibilidade de uma crise financeira no Brasil arrastar o mundo para uma recessão estava claramente na cabeça das autoridades financeiras internacionais e animou-as a endossar um ajuste fiscal gradual e leniente para os padrões do FMI.
As turbulências com a renúncia do presidente Banco Central e a mudança abrupta da banda cambial do real reavivaram os riscos imediatos que um descarrilamento do Brasil representa para seus vizinhos e para as economias asiáticas.
Mas na administração norte-americana e entre analistas, a percepção hoje é a de que as economias dos Estados Unidos e da Europa estão menos vulneráveis e os investidores em posição mais confortável do que estavam em agosto para suportar o solavanco da desvalorização da moeda brasileira.
Dados do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, mostram que os bancos norte-americanos diminuíram seus empréstimos ao Brasil em um quarto entre junho e setembro. Três cortes seguidos da taxa de juros nos EUA e a redução dos juros na Europa, com a adoção do euro, ajudaram a manter o crescimento nas duas principais economias.
A Bolsa de Nova York, que teve seu segundo dia consecutivo de fortes perdas hoje (14) por causa da crise brasileira, caiu de um nível 10% acima do que estava quando a moratória russa reacendeu a instabilidade global.
O Japão continua em recessão, mas começou a sanear seu sistema financeiro, o que é indispensável para a retomada do crescimento. Além disso, várias economias emergentes e companhias adaptaram-se à escassez de capital e estão hoje menos vulneráveis e à situação na Ásia, embora seja de crise, melhorou em relação a 1997.
Robert Hormats, o vice-presidente do banco de investimentos Goldman Sachs, disse ao Wall Street Journal que países como Tailândia e Coréia do Sul, que estiveram no epicentro da crise do fim de 97, estão em melhor situação hoje para suportar os efeitos de um vendaval financeiro no Brasil.
``Eles não ficarão imunes, mas serão menos afetados do que seriam se isso (a desvalorização do real) tivesse ocorrido no último verão (norte-americano).'
O economista Rudinger Dornbush, do Massachusetts Institute of Technology, afirmou que os efeitos externos de um colapso econômico do Brasil seriam agora menos severos do que no ano passado.
Na administração dos EUA, evitava-se fazer previsões sobre o impacto global da crise brasileira. Em Washington, a esperança é que o novo esquema de prevenção de crises globais montado para proteger o Brasil já tenha produzido um resultado colateral positivo, mesmo que venha a se revelar inútil para resguardar o País das consequências da relutância de sua classe política em aceitar o ajuste fiscal e da atabalhoada mexida na política cambial. Ele deu tempo para o mundo se preparar melhor para a desvalorização do real.

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