Guarujá, SP, 14 (AE) - Com barcos infláveis, vestindo macacões e usando máscaras contra poluição, os integrantes do Greenpeace fizeram muito barulho, no início da tarde de hoje, sinalizando a área do Rio Santo Amaro, onde fica um cano de descarga da empresa multinacional norte-americana Dow Química, localizada no Guarujá, na Baixada Santista (SP). Eles concretaram a saída da tubulação e recolheram três barris com a água, que disseram estar contaminada, para serem levados à diretoria da empresa.
De acordo com os ambientalistas, o cano, escondido na área do mangue, despeja nas águas do Rio Santo Amaro diversos poluentes, como organoclorados e fenois, com especial destaque para o tetraclorometano de carbono e o clorofórmio, encontrados no efluente e nos sedimentos do rio. De acordo com o coordenador de Programas do movimento, Délcio Rodrigues, o tetraclorometano de carbono pertence ao grupo dos organoclorados e ataca os rins e a pele, além de comprometer o sistema reprodutivo da cadeia alimentar. ``Os produtos são altamente tóxicos e podem provocar câncer.'
Coletas foram realizadas no local em agosto e,
posteriormente, analisadas pelo laboratório da Universidade de Exeter, na Inglaterra. ``Estamos denunciando o fato, durante a passagem do navio Greenpeace na região', afirmou Rodrigues.
Ele acredita que a Dow Química pode estar atuando como fonte significativa de organoclorados voláteis para o meio ambiente local, atingindo, assim, o Canal da Maré, que interliga o Rio Pouca Saúde com o Santo Amaro, chegando até o estuário.
Entretanto, o gerente de Segurança, Saúde e Meio Ambiente da unidade da empresa no Guarujá, Luiz Melo, encarou a denúncia do Greenpeace com surpresa.
``A tubulação é de água da chuva e não há qualquer tipo de efluente químico', assegurou. Melo não reconhece a validade das análises realizadas pelo integrantes do movimento ecológico naquele local, apesar do forte odor que exalava na área, e colocou-se à disposição para realizar outras e as divulgar.
``Todos os efluentes da empresa são monitorados pela Cetesb (Companhia Estadual de Tecnologia em Saneamento Ambiental) e a Dow não utiliza o tetraclometano de carbono e o clorofórmio na linha de produção.'
O protesto realizado hoje pelo Greenpeace faz parte da expedição em volta ao mundo que o navio vem realizando, desde dezembro, com início em Buenos Aires, na Argentina, para denunciar os danos causados ao meio ambiente pelo despejo de susbtâncias tóxicas, principalmente nos rios, mares e lagos. A etapa brasileira çomeçou no Rio e o navio permanece em Santos (SP) até domingo (17), no cais do armazém 9 da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp).
A denúncia de contaminação das águas do Rio Santo Amaro e do estuário santista foi feita por pescadores ligados à União dos Pescadores de Conceiçãozinha. O presidente da entidade, Ranulfo de Castro, também presente ao protesto de hoje, garantiu que não é mais possível pescar naquela região. ``Há pelo menos cinco anos, o cheiro de produtos químicos no local está insuportável; além disso, vemos os peixes morrer, razão pela qual temos de pescar em alto- mar', comentou. Não há mais peixes ou caranguejos no local.
Castro revelou ainda que o Greenpeace procurou a entidade e ele indicou o local onde se encontrava o cano de descarga da Rhodia e lá foram feitas as coletas cujos resultados estão sendo divulgados. O pescador lamenta não poder mais exercer a profissão naquela área e afirma que, no local, apareceram muitos peixes mortos e outros sem os olhos. ``Se continuar assim, vai acabar a pesca por aqui', enfatizou.
Para o coordenador de Programas do Greenpeace
Internacional, Marcelo Furtado, a imagem que a Dow Química tem de ``amiga' do meio ambiente, ``não passa de maquilagem verde'. ``Ela faz parte do programa internacional de atuação responsável (Responsable Care), parecendo ser amiga do meio ambiente, mas, aqui neste local, estamos vendo a verdadeira face do programa e da empresa', comentou.
Segundo ele, quando da passagem do Greenpeace pela Argentina, no pólo petroquímico de Baia Blanca, onde a Dow Química também opera, também foi encontrado clorofórmio e tetracloreto de metano nas águas e sedimentos. Por isso, o Greenpeace vai apresentar denúncia ao Ministério Público (MP) do Guarujá contra a empresa.
Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesca de Santos revela que o estuário perdeu 50% dos cardumes comerciais, nos últimos dez anos. ``O dado comprova a contaminação dos manguezais, complicando o desenvolvimento do berçário dos peixes', enfatiza o membro do Conselho Estadual do Meio Ambiente Carlos Bocuhy, também presente à manifestação. Bocuhy afirmou que o decréscimo da população no estuário compromete o alto-mar. ``A manutenção da vida dos animais nos oceanos depende da preservação dos estuários, que são os berçários dos mesmos.'
Ele entende que há dois grandes problemas com a
contaminação dos estuários: o primeiro deles se refere à subsistência de quem vive do mar, além da quebra da indústria pesqueira. Bocuhty alerta ainda para o fato de o homem ser a vítima final do processo, pois está no topo da cadeia alimentar e os peixes que sobrevivem estão contaminados.

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