São Paulo, 14 (AE) - Muitas têm sido e ainda serão as homenagens - shows, festas, discos - pelos 40 anos da bossa nova, mas poucas soarão tão bonitas quanto a que Rosa Passos fez ao lançar, na passagem do ano, o CD ``Antônio Carlos Jobim - 40 Anos de Bossa Nova'. O trabalho foi idealizado e produzido por Almir Chediak, organizador dos songbooks da bossa nova e do maestro Jobim, autoridade, portanto, num assunto e noutro. Almir produziu, ainda, o disco anterior de Rosa, ``Ari Barroso - Letra e Música', o que o torna autoridade em Rosa Passos. As 14 músicas do novo CD formam o repertório do espetáculo que Rosa apresenta, de amanhã (15) a domingo, no Sesc Pompéia.
Radicada em Brasília, a baiana Rosa foi tomada,
inicialmente, por êmulo feminino de João Gilberto, por motivos vários e até defensáveis: bossa-novista radical, violonista, Rosa canta com a dicção cool da bossa, com o acento baiano que é dela e de João, seu grande influenciador, com aquele senso de divisão, tão característico também do canto de João, que provoca deslocamentos do eixo melódico-harmônico, sem grande esforço aparente, como se a música fosse não o resultado de impulsos do corpo, mas a própria essência dos impulsos, dos movimentos do corpo.
Mas estas são as características necessárias para que se cante bem a bossa nova - o molde definido por João Gilberto. E Rosa Passos não é um êmulo feminino de João Gilberto e sim sua contrapartida feminina. Assim como se diz que nenhum cantor é melhor do que João, cantando bossa, nenhuma cantora será melhor do que Rosa, cantando bossa.
Tom Jobim, figura central na criação do gênero, alçou vôo em outras direções, logo depois de sua explosão mundial. Foi explorar a verve modinheira, a percepção villa-lobiana, o gosto chorão - mas deixou o que há de mais bonito na bossa nova. A suma de sua produção foi selecionada para o disco de Rosa Passos: Samba de uma Nota Só, Corcovado, Garota de Ipanema, Vivo Sonhando, Insensatez, Desafinado, Chega de Saudade, Meditação, Só em Teus Braços, Inútil Paisagem, Outra Vez, Este Seu Olhar, Esperança Perdida, Brigas Nunca Mais, parcerias com Newton Mendonça (o primeiro letrista da bossa) e Vinícius de Morais (cinco números têm letra e música de Tom: Corcovado, Vivo Sonhando, Só em Teus Braços, Outra Vez e Esse Seu Olhar).
Foi esse repertório que deu substância ao disco em que Frank Sinatra canta Tom Jobim; é o repertório que sustenta o belíssimo ``Dez Anos Depois', álbum duplo de Nara Leão, lançado dez anos depois do surgimento da bossa e só no ano passado relançado em CD. E é o repertório de qualquer disco de bossa que se preze. Pois Rosa Passos vai encontrar novidades no que, por outra cantora, seria apenas repeteco, retomada de material já sabido. É que Rosa é uma grande intérprete, uma grande criadora que, como o mestre João, faz sua a música que canta, filtra por sua sensibilidade padrões de beleza que poderiam estar na composição original, mas que não haviam ainda sido revelados. Com Rosa Passos, a bossa nova está estalando de nova. (M.D.)





