São Paulo, 14 (AE) - Apesar das recomendações feitas por um grupo de técnicos, a Comissão Normativa de Legislação Urbanística (CNLU) aprovou hoje a construção de um edifício comercial de dez andares na Rua Hungria. A aprovação cria um precedente que pode levar à construção de, pelo menos, mais cinco prédios na região. Se isso ocorrer, cerca de 900 veículos a mais passarão a circular pela já complicada área entre as Pontes Eusébio Matoso e Cidade Jardim.
O grupo de discussões - que contou com a participação de urbanistas e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), entre outros - estabeleceu como aceitável a construção de um edifício de cinco andares, com a criação de 86 vagas gratuitas para os veículos, acesso pela Rua Hungria com a abertura de uma pista de desaceleração, liberação da Zona Azul para os moradores da região e aceleração do processo de tombamento da área.
De acordo com a urbanista Regina Monteiro, do Movimento Defenda São Paulo, poucas dessas propostas serão cumpridas. O prédio terá dez andares e 123 vagas, quando o ideal seria 170. Segundo Regina, os técnicos tentaram fazer um acordo com a construtora JHS para que a obra fosse feita nos moldes discutidos pelo grupo. ``Mas a CNLU informou que isso seria um acordo em separado e para os outros prédios valeriam outras determinações', conta. ``Claro que eles não fizeram o acordo porque sairiam perdendo'. Inicialmente, era previsto um prédio de 17 andares. Fábio Auriemo, da JHS, concordou em baixar o número de pavimentos para 12.
Desaceleração - Não foi aprovada a construção da faixa de desaceleração e o impacto de cada novo empreendimento deverá ser analisado pela Secretaria Municipal de Transportes, à qual está ligada a CET.
A Rua Hungria faz parte de uma Z-1, área estritamente residencial. Estava prevista, porém, na Operação Urbana Faria Lima - que criou a avenida de mesmo nome -, a mudança de uso da região, o que permitiria, por exemplo, a instalação de escritórios de prestação de serviços, como ocorre hoje na Avenida Brasil.
``Os moradores permitiram apenas a mudança de uso, com edificações que tivessem o térreo e mais um andar apenas', explica a vice-presidente da Sociedade dos Amigos dos Jardins Europa e Paulistano, Myrian Arantes Barcellos. Na verdade, eles nem sequer concordavam com a análise dos técnicos. ``Achamos que essa aprovação mostra a especulação imobiliária em detrimento da qualidade de vida e do ambiente.'
Myrian criticou também a forma como foi feita a reunião final da CNLU. ``Ao contrário do que esperávamos, eles não concederam a palavra a ninguém e iniciaram a votação', diz. ``O secretário, que tem o voto de minerva, foi o primeiro a dar seu parecer e induziu a votação.'
O secretário Municipal do Planejamento, Alfredo Cotait Neto, acredita que o processo de discussões foi conduzido de forma democrática. ``Pela primeira vez, foram ouvidos todos os segmentos da sociedade e a proposta foi aprovada por unanimidade', afirma.
Neto considera que a solução encontrada para o caso protege toda a região. ``Aquela área da frente da Marginal tende a deteriorar-se e essa solução vai conseguir preservá-la'. O secretário afirmou ainda que o processo de tombamento será acelerado. ``Somos francamente favoráveis a essa medida e nos empenharemos nesse sentido'.
A maior parte dos Jardins Europa e Paulistano já foi tombada. A Rua Hungria está no trecho que ainda não foi beneficiado pelo processo.





