São Paulo, 14 (AE) - Anna Magnani deveria ter sido a Cabíria de Fellini. Foi para a atriz de Rosselini que ele escreveu o papel da prostituta afogada por seu cafetão nos primeiros minutos de ``Noites de Cabíria'. O papel acabou nas mãos de Giulietta Masina, que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 1957. Merecidamente. Anna Magnani engoliu as próprias palavras quando Fellini a convidou. Na ocasião, a grande atriz italiana teria dito, indignada, ao diretor: ``Federico, honestamente, você poderia ver alguém como eu presa num banheiro por um ator canalha?'
A sequência, ao contrário do que faz supor a observação de Anna Magnani, exige uma atriz familiarizada com o pathos de uma suburbana. Giulietta consegue o que talvez nem mesmo Anna conseguisse, identificada que estava com as mulheres corajosas, agressivas (e suburbanas) de Rosselini. Presa no vestíbulo da casa do ator-comendador (Alberto Lazzari), Cabíria só tem como companhia um inocente cãozinho, enquanto seu futuro ex-cliente discute com sua amante no quarto. Não será essa a única sequência que adota como referência o Carlitos de Chaplin, o vagabundo eternamente cercado de cachorros e crianças.
Duas versões - Essa identificação com animais irracionais e baixinhos não é casual. A Cabíria de Fellini nasceu sob o signo da inocência. Ele tinha nas mãos duas histórias: na primeira (a versão final), uma prostituta de rua era levada para a casa de um ator milionário e trancada no banheiro, enquanto ele discutia com a amante. Na segunda, uma garota alienada ficava grávida de um vagabundo que julgava ser São José, de quem teria um filho - claro - divino.
Essa segunda versão foi descartada e acabou virando um filme de Rosselini (Amore), estrelado por Anna Magnani, no qual Fellini tem uma participação especial como ator. De qualquer modo, Fellini não descartou o lado místico da história. Cabíria não tem nenhum filho divino em seu filme e nem testemunha qualquer manifestação teofânica, mas o milagre da transformação (de alguma forma) é real no filme. André Bazin, a respeito do epílogo de Cabíria, lembrava sua semelhança com a estrada de Carlitos, que simboliza a esperança no futuro.
Esperança - Não seria lícito contar esse epílogo para quem não viu o filme, ainda que um filme clássico, mas Bazin considerava o olhar de Giulietta, na cena final, uma das melhores criações de Fellini - um olhar que, segundo o grande crítico francês, nos convida a voltar à estrada já percorrida por Cabíria para redescobrir o milagre da esperança.
Seria possível escrever um jornal inteiro sobre esse olhar nada enigmático de Giulietta. É um olhar transparente, que vai de encontro ao do espectador, desarmando-o, impossibilitando qualquer julgamento. Sem dinheiro, sem amor, sem fé, Cabíria transfere para o outro lado da tela um tênue fio de esperança na humanidade. Nesse momento cessa tudo. Não existe mais a patética prostituta de rua explorada por cafetões e cultos crápulas. Não existe mais a rude suburbana que despreza suas colegas de profissão. Só existe o renascimento, no silêncio, na negação do mundo, no sorriso de resignação, paradoxalmente acompanhado por uma dança de jovens na estrada.
Religiosidade - A religiosidade de Cabíria é inaugural. Como um ser primitivo, ela identifica vida com morte, Terra e firmamento. Logo no início, quando o cafetão Giorgio a atira nas águas do Tibre, após roubar sua bolsa, o céu de Roma confunde-se com seu reflexo nas águas do rio. Na sequência final, o céu volta a desabar sobre o rio. Cabíria nota que a luz crepuscular é estranha, mortiça (novamente a confusão da abóboda celeste com o túmulo). Como ela, Cabíria sente que está prestes a extinguir-se. Parece claro que o filme de Fellini não seria o mesmo sem sua mulher Giulietta Masina.
Companheira de toda a vida, fez com ele filmes memoráveis (de Abismo de Um Sonho a Ginger e Fred). Aliás, foi em Abismo de um Sonho (ou O Sheik Branco) que Cabíria apareceu pela primeira vez. Ela era uma das duas prostitutas a quem Cavalli (Lepoldo Trieste) contava suas desventuras numa praça romana após o desaparecimento de sua mulher, seduzida por um ator de fotonovelas. Cabíria nem estava incluída no roteiro original, segundo Fellini.
Língua das ruas - Quando filmava ``A Trapaça' (Il Bidone), Fellini conheceu uma velha na periferia de Roma, moradora de uma casa construída em terreno ilegal (provavelmente uma ex-prostituta sem dinheiro para pagar aluguel e temerosa de ser despejada). É nesse momento que entra a colaboração de Pier Paolo Pasolini. Estudioso dos dialetos italianos, Pasolini, então mais poeta do que cineasta, foi convocado por Fellini para ajudar os roteiristas Ennio Flaiano e Tulio Pinelli a traduzir o dialeto romano das prostitutas e escrever todos os diálogos do episódio da peregrinação ao santuário do Divino Amor.
Hipnose - Giulietta Masina teve de estudar esse dialeto para proferir todos aqueles impropérios que você ouve em ``Noites de Cabíria'. Mas não precisou dele para se hipnotizada por um charlatão num show de vaudeville, a sequência mais reveladora da verdadeira inocência de Cabíria, quando a prostituta, voltando aos seus 18 anos, colhe flores imaginárias no palco e fala de sua fixação num tal Oscar, observada na platéia por um espertalhão que a espera na saída do teatro, pronto para assumir a persona do ser amado perdido.
Essa capacidade de alternar cenas dramáticas com generosas doses de humor fez de Fellini um mestre na arte de unir o prosaico e o espetacular. Quando todos esperam o milagre que vai reabilitar um ex-cafetão, livrando-o de suas muletas no santuário do Divino Amor, Fellini surpreende jogando o infeliz ao chão. Em seguida, vemos o mesmo homem deitado na grama e comendo como um glutão ao lado de Cabíria e suas amigas prostitutas.
Mas uma vez, a bússola acaba sendo Giulietta Masina. Em ``A Estrada da Vida' (La Strada), tudo converge para Gelsomina, seus guizos e sua patética performance como a chaplinesca companheira do rude Zampano. Em ``Noites de Cabíria', ela é o epicentro de uma crise moral e anjo anunciador de uma nova ordem num país em que mafiosos dormem o sono dos justos ao lado do papa. (Antonio Gonçalves Filho)





