Buenos Aires, 14 (AE) - ``Não vamos desvalorizar'. Desta forma, o presidente Carlos Menem deixava claro que o governo argentino pretende continuar mantendo a paridade dólar-peso, independendo do que aconteça no Brasil.
Em declarações à imprensa, Menem disse que até agora não consegue entender a moratória do governador Itamar Franco e que essa atitude ``atinge os interesses do Brasil'.
``A Argentina tem uma economia saudável e não será muito atingida pelo que está acontecendo no Brasil', disse. O presidente argentino considera que a bolsa de Buenos Aires irá se recuperar nos próximos dois dias.
Menem contra-argumentou as críticas de diversos economistas e empresários argentinos de que o governo brasileiro havia prometido não desvalorizar o real mais de 7% anualmente. A ampliação da margem de flutuação do real para 9% foi encarada como uma traição brasileira.
Menem defendeu Fernando Henrique Cardoso afirmando que a desvalorização ``foi um pouco além pelas circunstâncias imperantes'.
O ministro da Economia, Roque Fernández, afirmou que não haverá nenhuma modificação no tipo de câmbios na Argentina.
Segundo Fernández, se o Congresso brasileiro se apressar em aprovar a reforma econômica, os mercados vão se tranquilizar. ``Os mercados tiveram uma reação exagerada', disse o ministro.
Apesar da aparente tranquilidade do governo, diversos analistas econômicos consideram que não há motivos para isso.
``A não ser que aconteça um milagre, nos próximos dias veremos uma sequência de desvalorizações do real', sustenta o analista Aldo Abram.
Fontes próximas do ex-ministro da Economia Domingo Cavallo disseram à Agência Estado que integrantes do governo brasileiro estão em constante contato com o ex-ministro.
Cavallo afirmou que a paridade dólar-peso será mantida na Argentina e que a estabilidade no país está assegurada, mas admitiu que crescerá a recessão.
Os argentinos olham para o Brasil como se a casa do vizinho estivesse pegando fogo e temem que a qualquer momento o incêndio poderá passar para seu terreno. O temor tem seus motivos, já que o país exporta para o Brasil US$ 8 bilhões, um terço do total de suas vendas ao exterior.
Além disso, compra do Brasil US$ 7 bilhões, o equivalente a 25% do total de suas importações. O raciocínio é que a Argentina passará a vender menos para o Brasil. Em contrapartida, comprará mais do Brasil.
O fato de a Argentina ser o principal mercado para os produtos brasileiros na América do Sul está causando o temor de que comece uma invasão de produtos brasileiros no país.
O setor mais atingido será o de automóveis, cujas vendas ao Brasil já registram uma queda de 27% desde setembro.
Existe preocupação pelas vendas de petróleo, produto do qual a Argentina envia 35% do que é exportado para o Brasil.
Com a atual crise, o Brasil poderia preferir o petróleo nigeriano ou venezolano, mais barato. Os lácteos também poderiam ser atingidos, mas seu impacto seria menor, já que afetaria 6% da produção argentina. Os produtores argentinos de trigo não temem pelas suas vendas, já que a produção brasileira é insuficiente.
Isso não atinge planos de investimento das empresas argentinas no Brasil, principalmente no setor de alimentos e energia. Grupos como Socma ou Roggio esperam que com a crise, o processo de privatizações se acelere e se interessam pelas concessões de estradas. Na área energética, as empresas YPF, Pérez Companc, Pescarmona e Socma possuem planos de investimentos de US$ 3 bilhões no Brasil. Destes, para o setor petroleiro estariam destinados US$ 1,6 bilhão.
No entanto, os planos de investimentos de empresas brasileiras na Argentina está sendo revisado, e a maioria esperará até abril para tomar uma decisão.
Na imprensa argentina, a crise brasileira foi a manchete principal dos jornais portenhos. O jornal ``Página 12' colocou na primeira página uma foto-montagem de FHC discursando na frente de uma bandeira brasileira pegando fogo. O título foi ``O Inferno tão temido', e definiu esta quarta-feira como ``o carnaval dos especuladores'. O jornal de maior circulação no país, o Clarín, deu a manchete ``O Brasil desvalorizou, mas a crise continua'. O tradicional ``La Nación' foi contundente: ``Brasil desvalorizou - alarme mundial'. E deu destaque às declarações de Menem de que a Argentina não vai desvalorizar o peso. O jornal econômico ``El Cronista Comercial' destacou a fuga de US$ 1,7 bilhão e intitulou: ``Brasil sacudiu os mercados'. O jornal ``Ámbito Financeiro' deu a manchete ``O inferno tão temido: Brasil desvalorizou 8%'. O jornal indicou que ``a Argentina não cresceria em 1999 por causa do efeito Brasil', e destacou que entre os vários produtos argentinos atingidos pela redução de importações no Brasil estarão a carne e as frutas.
A cobertura na TV argentina sobre a crise foi mais ampla - em geral - do que na TV brasileira, chegando a ocupar metade da maioria dos noticiários de uma hora no horário nobre.
Houve retransmissões ao vivo do discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso e entrevistas com economistas brasileiros. A preocupação pelo Brasil foi uma constante nas conversas dos habitantes de Buenos Aires hoje pela manhã.
Os únicos satifesfeitos eram os 100 mil turistas argentinos que estão de férias no Brasil. O motivo é que seu poder aquisitivo aumentou, e terão um lucro de 9% por causa da desvalorização do real.

mockup