São Paulo, 14 (AE) - Dois fatores cruciais devem representar o sucesso ou o fracasso da nova política cambial do País, na opinião do ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega: o fluxo de divisas nos próximos dias e a expectativa dos mercados quanto aos juros. ``Até o momento, a reação do mercado é muito ruim', disse.
Maílson lembrou que o próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, declarou diversas vezes que a desvalorização seria extremamente arriscada em um momento instável como o atual. ``Não houve nenhum caso até hoje de mudança da política cambial em um período de turbulência econômica que tenha dado certo', disse. ``Ninguém discute a qualidade técnica e o novo desenho da política cambial, mas a decisão sobre a mudança foi tomada em um momento pouco apropriado.
``O País enfrenta uma grave crise de confiança detonada pela insanidade da moratória anunciada pelo governador mineiro Itamar Franco', disse o ex-ministro. ``Além de anunciar a desvalorização em um momento inoportuno, o governo ainda permitiu a saída do presidente do Banco Central, figura sempre identificada como um dos sustentáculos do plano de estabilização.'
Maílson disse que o próprio governo contava com o agravamento da crise logo após o anúncio das medidas, mas a dúvida, agora, segundo ele, é saber se a turbulência inicial será passageira ou se o País terá capacidade para defender a moeda nos novos níveis estabelecidos pela banda mais flexível.
``Com excessão de alguns empresários da Fiesp e de analistas que defendiam a desvalorização, a reação negativa era esperada, mas até alguns dos defensores da medida já estão dizendo que o governo demorou ou então que o percentual foi inferior ao necessário'.
A maneira como o mercado reagiu hoje à notícia da demissão do diretor de Fiscalização do BC, Cláudio Mauch, foi citada por Maílson como mais um exemplo do grau de incertezas desencadeado pela mudança cambial. ``A saída de Mauch seria até natural, pois ele já havia manifestado a intenção de deixar o governo, mas a informação deu margem à disseminação de boatos absolutamente fantasiosos'.
Para o ex-ministro, o governo agora depende de um fato político, do apoio internacional ou da percepção dos investidores de que o governo tem bala para continuar defendendo a moeda.

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