São Paulo, 14 (AE) - Poderia ter sido melhor, mas a fragilidade do quadro brasileiro fez com que uma série de fatos sufocasse qualquer lâmpejo de otimismo no mercado de câmbio hoje e acabou refletindo no fluxo cambial, que mais uma vez ultrapassou US$ 1 bilhão. Até as 19 horas, o saldo líquido, que corresponde à diferença entre o volume de compra de dólares e o de venda, estava negativo em US$ 1,092.
O preço do dólar comercial abriu em queda com o mercado relativamente animado com a aprovação, na noite de quarta-feira, de pontos importantes do ajuste fiscal. Chegou a sair negócio com dólar a R$ 1,305 para venda, o que representa uma queda de 1,5% em relação ao novo teto fixado para a banda larga, de R$ 1,32.
No início da tarde, porém, o dólar iniciou uma firme trajetória de alta depois de anunciado o rebaixamento da dívida soberana do Brasil por uma das mais importantes agências de classificação de risco, a Standard & Poor´. A alta foi sustentada por movimento crescente de compra da moeda norte-americana.
Depois do rebaixamento, outra notícia: a possível demissão de Claúdio Mauch, diretor de fiscalização do Banco Central (BC), considerada pelos analistas como tardia. ``Por que ele não saiu com o Gustavo Franco para o mercado digerir as duas saída de uma vez só', comentavam operadores.
Depois da demissão, novo rebaixamento da S&P, desta vez para as dívidas de três Estados brasileiros. E, por fim, declarações de um banco de investimento internacional sobre os desdobramentos (nada favoráveis) da desvalorização do real.
Por volta das 15 horas, o BC fez o único leilão de dólar para abastecer o mercado, que a essa altura já estava para lá de ``seco' (sem moeda).
Sem proteção - Mas não foi apenas a série de fatos que alimentou o nervosismo do mercado, contribuindo para a alta dos preços. Os limites de alta das cotações fixado pela Bolsa de Mercadoria & Futuros (BM&F) para os contratos de câmbio travaram as operações e os investidores ficaram sem opção de hedge (proteção).
É certo que existem os papéis do governo, mas eles se destinam a quem tem caixa disponível. No mercado futuro, porém, pode-se fazer hedge protegendo algum passivo em dólar. Um recebível, por exemplo. Os investidores acabaram recorrendo ao mercado futuro de juros, pressionando as taxas.
No início da noite, a BM&F comunicou o mercado das alterações nos limites de oscilação de preços para os contratos futuros de dólar comercial e flutuante e nos contratos de cupom cambial (DDI), já a partir do pregão de amanhã.
A entidade comunicou ainda que poderá alterar ou revogar qualquer limite mediante prévia comunicação ao mercado, com 30 minutos de antecedência. As medidas visam atender à demanda por operações de hedge. Ficaram de fora, entretanto, os limites dos contratos.
Fluxo - O resultado das operações de câmbio, às 19 horas, era negativo em US$ 677 milhões no mercado de dólar comercial e de US$ 415 milhões no flutuante. O movimento do flutuante vem crescendo substancialmente. Nesse mercado, os dólares são negociados basicamente por não-residentes. Ou seja, investidores brasileiros que estão no exterior.
O crescimento das remessas feitas pelo flutuante reflete a desconfiança dos próprios brasileiros, que deixam de procurar as alternativas internas para fugir de uma deterioração do real e partem rumo ao mercado externo. Na quarta-feira, dia da desvalorização do real, o saldo líquido ficou no vermelho em US$ 1,1 bilhão.

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