- Josefa Santos Lima, membro do Conselho Tutelar da Vila Mariana
passou quase oito horas na frente da Febem Imigrantes hoje, mas não conseguiu entrar. Ela pretendia averiguar a situação dos menores. "Quero entrar, mas eles não deixam; nós, conselheiros tutelares, somos responsáveis, segundo o estatuto, por salvaguardar e inspecionar esses menores", disse. "Temos esse direito, segundo o artigo 136 do estatuto", disse. "Aqui os menores estão sob péssima condição, pois não estudam e são massacrados; por isso querem descontar na sociedade". - Alguns funcionários conseguiram sair ilesos da Febem durante o motim. Foi o caso de Lúcia Rodrigues, uma das responsáveis pela unidade educacional 4, para internos de 18 a 21 anos. "Tem infrator bom lá dentro que só quer cumprir a pena e ir embora, mas acabam pagando o preço pela confusão". Ex-interno da Febem, o monitor Cláudio dos Santos, de 32 anos, disse que nunca viu uma rebelião dessas proporções. Na tentativa de salvar alguns colegas reféns, ele tentou negociar com os "líderes", mas foi impedido pelo diretor da unidade, Jorge Guedes. "Temos medo de represálias, porque a situação lá dentro é tensa", afirmou Santos. - Caso os funcionários da Febem mantenham a decisão de entrar em greve, a instituição e o Sindicato dos Trabalhadores em Entidades de Assistência ao Menor e a Família entraram com pedido de medida cautelar no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) para assegurar que 50% dos funcionários continuem trabalhando. Caso o pedido não fosse feito, o TRT entraria com a medida cautelar para garantir o cumprimento da norma legal que exige que os 50% dos trabalhadores em greve prestem serviços à instituição. Ao sair do complexo o padre Júlio Lancelotti disse que parecia ter estado em um lugar onde havia caído uma bomba. "Eu nunca vivi uma guerra, mas parece que estive num lugar em que caiu uma bomba. Tá tudo queimado, tudo destroçado". O cardeal-arcebispo de São Paulo, Claudio Hommes, colocou a culpa na precária situação em que ficam acomodados os internos. "Eles vão dormir com raiva e acordam com mais raiva ainda". A promotora de Justiça da Vara da Infância e da Juventude, Sueli Riviera sobre a situação: "Eles (os menores) estavam tensos, invadiram a enfermeira, estavam sob efeito de álcool e éter que eles encontraram no local", disse. "Eles estavam desorganizados e o que pude sentir é que estavam com medo. Todos queriam sair dali e serem transferidos para outros lugares". Ela também reclamou da demora em conseguir a liberação dos ônibus que levou os menores para outras unidades. "A situação estava ficando cada vez mais tensa. Conseguimos negociar a transferência de alguns menores, mas levou quase três horas para que os ônibus chegassem". - No sábado, os funcionários distribuíram uma circular: "Alertamos as famílias que no dia 26 de outubro entraremos em greve contra as demissões que o atual presidente da Febem está realizando com justa causa sem nenhum direito trabalhista. Você: mãe, pai, responsável deverá para ajudar seu filho e estar no dia 26 nas unidades para evitar que os adolescentes sejam cuidados pela Tropa de Choque, conforme foi dito pelo presidente da Febem". - O senador Eduardo Suplicy, ao retornar do local em que se encontravam os destroços da rebelião, disse nunca ter visto um cenário tão desolador. "A coisa mais terrível que eu vi foi o resto dos corpos queimados esparramados pelo chão. Fiquei impressionado ao ver duas mãos entrelaçadas e carbonizadas ao chão. Nunca vi algo assim, foi uma tremenda barbariedade o que aconteceu neste local".





