Desigual sempre
‘’Até entre as flores se nota// a diferença da sorte// umas enfeitam a vida// outras adornam a morte//’’. Há críticos mais cartesianos que se irritavam com o apego do Brasil aos aforismas por sua falta de densidade, muito comum nos ditos populares. Uma das mais cerebrais análises de um especialista da área, o Marquês de Maricá, foi alvo de contundente crítica de Wilson Martins.
Em se tratando de desigualdades, é impossível não perceber a diferença de tratamento jurídico-penal entre os condenados do mensalão e, possivelmente, com os do petrolão e os sentenciados comuns. É claro que por suas ligações clânicas de políticos aparecem mais no holofote da mídia como na compreensão dos seus aliados. Enfim, uma espécie de aura, para alguns até de martírio como a que se concedeu aos guerrilheiros, o que convenhamos é uma sandice, já que são autores de improbidade e desvios, e quase uma novelesca preocupação com seu destino, se padecem de deficiências médicas e se não lhes permite o direito ao trabalho. Seus processos de progressão da pena e os ganhos com o comportamento carcerário parecem uma espécie de folhetim, já que seria herético tentar compará-los às ‘’Memórias do Cárcere’’, de Graciliano Ramos, ou qualquer outro texto clássico equivalente.
Obviamente constituem uma raridade como fauna (a de rico ser denunciado e também condenado) no Brasil, onde pessoas de expressão social são imunes, todavia é visível o trato privilegiado que começa com a contratação de advogados de primeiríssimo time às tais ‘’vaquinhas’’ que fazem nas redes sociais para pagar multas processuais, inimaginável no cenário comum dos presídios, mesmo com o grau de coordenação ‘’guerrilheira’’ a que chegaram aqueles que se ligam do PCC ao comando vermelho.

Execração não
Em 1964 nos processos que respondemos havia alguma curiosidade, mas sem o impulso da execração como se deu em presídios em ilhas como a das Flores onde a fina flor da burguesia olhava os sentenciados comunistas e subversivos como animais no zoo.
Tínhamos a solidariedade dos amigos e lembro como celebramos o dia em que saiu a nossa sentença administrativa, a do Ato Institucional 1, no apartamento da Nancy Vanderlei, diretora da Biblioteca Pública. Uma efusão discreta, pois lá fora, na rua, havia ‘’isolamento’’ e uma punição indireta e dura na falta de emprego ditada também pelo temor do empresariado de ser mal visto pelos milicos na guarida aos enquadrados e punidos.
Claro que no caso atual dos mensaleiros havia também a morbidez em puní-los ao vê-los sem a postura majestática anterior especialmente de Zé Dirceu como se estivesse continuando na luta revolucionária anterior e não por ter sido apanhado com a mão no jarro, tanto ele quanto a companheirada.
Agora novamente na saga dos megaempresários e executivos das empreiteiras, embora a surpresa do evento, insólito em nossas tradições, a arrogância e a soberba agredidas pelo constrangimento prisional, uma parte da sociedade festeja como vingança às suas carências o fato de a turma do colarinho branco estar finalmente (essa mais relevante na hierarquia socioeconômica) prestando explicações à justiça por seus malfeitos. É uma compensação parcial já que só a conclusão dos processos, com o exercício da ampla defesa por parte dos denunciados, permitirá dizer que demos mais um avanço na consolidação da ordem e da sociedade de direito democrático.
Quem sabe os privilégios dos indiciados, que reclamam das instalações precárias da Polícia Federal, sirva para um momento de reflexão em torno dos presos que não contam com o ‘’munus’’ da condição política ou de empresários que com eles convivem em indisfarçável contubérnio.

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