LEITURA - A voz das sombras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Algumas belezas são formadas pela mais nua das simplicidades. Nada de mirabolantes complexidades revestidas de longos tecidos. Nada de carros alegóricos conceituando um universo de cores de nascidas tecnologias. Algumas belezas exigem apenas discretas e pequenas simplicidades.
''A Contadora de Filmes'', romance do escritor chileno Hernán Rivera Letelier, é um daqueles casos literários onde a simplicidade dá forma ao mundo e estabelece a beleza em discrição. Um breve romance que consegue comportar galáxias de sentidos e sensações.
Lançado pela editora Cosac Naify, ''A Contadora de Filmes'' já está nas mãos do cineasta Walter Salles para ser adaptado para o cinema. Fica evidente que qualquer cinéfilo, ao ler a história criada por Hernán Rivera Letelier, se sinta impelido a transformá-la em filme. Primeiro por tratar-se de um romance sobre a magia do cinema. Segundo porque a dimensão da história é uma espécie de síntese das transformações do mundo contemporâneo.
Imagine uma garota de pouco mais de 10 anos cuja ocupação é ir ao cinema e em seguida contar o filme para ao pai e quatro irmãos. A família é louca por cinema, mas não possui dinheiro suficiente para todos assistirem aos filmes. Eleita pela sua impressionante capacidade narrativa, a garota assume tal função e adota o nome artístico de Fada Docine. A miséria não consegue superar a magia.
A família vive na miséria após um acidente de trabalho sofrido pelo pai e pelo abandono da mãe que sumiu no mundo. Habitam um pequeno povoado de mineiros que atuam em minas de salitre na região do deserto de Atacama. No lugar, o cinema é a única forma de diversão no final da década de 50 e começo de 60.
Aquilo que seria apenas uma maneira de superar as dificuldades adquire proporções maiores. Num primeiro momento os vizinhos começam a frequentar as ''contações de filmes''. Num segundo momento, o povoado inteiro começa a achar assistir à garota contando os filmes muito melhor do que assistir aos filmes no cinema. Além de ser mais barato, ouvir se torna mais interessante do que ver.
Em pouco tempo a humilde sala do barraco onde moram se transforma numa sala de cinema. Bancos, cadeiras, parede branca ao fundo e ingresso na porta. No centro de tudo, Fada Docine, que se torna a estrela do povoado de mineiros. De fã de cinema, ela se transforma no próprio cinema.
Como o destino é uma pedra bruta de moinho, a televisão chega no lugar e invade tudo. As pessoas não saem mais de casa, o único cinema do povoado fecha, a arte de Fada Docine torna-se obsoleta. Tudo isso coincide com a morte do pai, com a debandada dor irmão, como o golpe militar do Chile e a decadência da exploração das minas de salitre.
''A Contadora de Filmes'', acima de tudo, é um romance sobre o imaginário da narrativa humana. Sobre a necessidade que as pessoas sentem de ouvirem histórias, penetrar na ficção e voltar revigoradas para a realidade. Sobre o papel da ilusão no momento em que toda e qualquer história é narrada, seja na forma de cinema, novela, literatura, rádio, teatro, etc.
Considerado um dos grandes escritores chilenos da atualidade, Hernán Rivera Letelier, nascido em 1950, é autor de 13 livros de poesia, conto e romance. ''A Contadora de Filmes'', publicado em 20 países, é seu segundo romance publicado no Brasil. O primeiro, ''O Fantasista'', foi lançado pela editora Rocco em 2008. Suas histórias são geralmente ambientadas nas cidades abandonadas pelos mineiros chilenos a partir da década de 60. Ele próprio, na juventude, trabalho como mineiro antes de se tornar professor.
A própria narradora de ''A Contadora de Filmes'', a Fada Docine, é a única habitante de uma cidade fantasma de mineiros. Além de guardar suas lembranças pessoais, também guarda a história do povoado abandonado. Fada da ilusão da ficção e guardiã da história real de um passado esquecido. A voz das sombras, do imaginário da humanidade. Uma voz que revela que ouvir contar pode ser mais sedutor do que ver com os próprios olhos. Aquele tipo de beleza que não está ao alcance dos olhos.
Serviço:
- ''A Contadora de Filmes''
Autor - Hernán Rivera Letelier
Editora - Cosac Naify
Tradução - Eric Nepomuceno
Páginas - 112
Quanto - R$ 29,90
Fragmento:
Como em casa o dinheiro andava a cavalo a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai - só pelo nome do ator ou da atriz principal - achava que seria bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala. Era lindo, depois de ver o filme, encontrar meu pai e meus irmãos me esperando ansiosos em casa, sentados enfileirados que nem no cinema, penteadinhos e de roupa limpa, recém-mudada.
Meu pai, com a manta boliviana cobrindo as penas, ocupava a única poltrona que a gente tinha, e assim era a plateia lá de casa. No chão, ao lado da poltrona, brilhava sua garrafa de vinho tinto e o único copo que havia sobrado em casa. A galeria era aquela bancada comprida, de madeira bruta, onde meus irmãos se acomodavam em ordem, do menor para o maior. Depois, quando alguns de seus amigos começaram a aparecer na janela, a janela virou o balcão.
(Fragmento de ''A Contadora de Filmes'' de Hernán Rivera Letelier)


