Um drible no preconceito
Exposição “Contra-ataque! As mulheres do futebol” mostra trajetória de resistência até a conquista da maior artilharia na história das Copas
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de junho de 2019
Exposição “Contra-ataque! As mulheres do futebol” mostra trajetória de resistência até a conquista da maior artilharia na história das Copas
Viviani Costa - Grupo Folha 

Foram quase 40 anos de proibição. Entre 1941 e 1979, uma lei brasileira tentou afastar as mulheres dos gramados. A formação de clubes de futebol em diversos estados 'assustou' os homens com visão mais limitada do esporte e do universo feminino. Por sorte, elas resistiram, entraram em campo e superaram recordes. Na última terça-feira (18), a jogadora Marta fez o 17º gol em Copas do Mundo e assumiu o posto de maior artilheira na história das Copas, ultrapassando a marca do alemão Klose. Mesmo com o futebol no pé, o preconceito ainda não deu lugar ao reconhecimento.
A exposição “Contra -ataque! As mulheres do futebol” (em cartaz no Museu do Futebol, em São Paulo) reúne documentos, fotografias, objetos e depoimentos de quem escreveu ou ajudou a trilhar essa história. Para a doutora em Antropologia pela USP (Universidade de São Paulo) e Diretora de Conteúdo do Museu do Futebol, Daniela Alfonsi, o caminho a ser percorrido ainda é longo e repleto de percalços. No entanto, há esperanças para o fortalecimento do futebol feminino no País.
A mostra tem curadoria de Aline Pellegrino, Aira Bonfim, Lu Castro e Silvana Goellner e permanece em cartaz até 20 de outubro, no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.
Quando começa a história das mulheres no futebol?
O que as pesquisas recentes tem mostrado é que a mulher joga futebol assim que o futebol começa no mundo. Já no final do século 19 se tem notícia da consolidação das regras na Inglaterra e esses ingleses espalham a bola para outros países. Poucas décadas depois, já nos anos de 1920, temos registros de mulheres jogando na França, no Reino Unido e aqui no Brasil não foi diferente. Na exposição “Contra-ataque! As mulheres do futebol”, a gente traz imagens de mulheres jogando já nos anos de 1930, mas as pesquisas não param, elas continuam avançando e acreditamos que seja possível sim encontrar registros mais antigos de mulheres jogando bola no Brasil.
Como foi o início dessa trajetória aqui no Brasil?
Temos registros de mulheres jogando já nos anos de 1930, mas não nos espaços em que o futebol estava se consolidando para os homens, que foram os clubes. Sempre contamos a história da modalidade no Brasil falando dos primeiros clubes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Também tem a questão da restrição à elite e depois a classe trabalhadora começa a ter direito a jogar, mas isso tudo do ponto de vista masculino. Quando procuramos mulheres jogando bola nesses clubes, nós não encontramos. Vamos encontrar nos circos, nos espetáculos circenses. Nessa época, no começo do século 20, esses espetáculos são muito populares e acessíveis.
Devo lembrar que no Brasil ainda não havia uma rede de comunicação tão grande. Então era o circo que trazia notícias, trazia espetáculos de teatro, de música e também levava esporte. A mulher encontrava esse espaço no circo para poder jogar e seguia de forma itinerante por todo o País.
Isso começa a fomentar a formação dos primeiros clubes e times de mulheres muito ligados à classe trabalhadora, são mulheres operárias. Vamos ver, por exemplo, no final dos anos de 1930 e 1940, vários times surgindo nos subúrbios cariocas como Realengo e Madureira. Todo esse subúrbio fabril do Rio de Janeiro vai ter time de futebol feminino já em 1940, pouco antes de ser proibido no Brasil. Uma das curadoras, a Aira Bonfim, que foi responsável por essa pesquisa, traz que, na verdade, a proibição veio como uma resposta a esse futebol feminino que já vinha crescendo no País.
A proibição da prática do futebol feminino durou cerca de 40 anos. Como as mulheres enfrentaram esse período?
Com muita resistência e um quê de ousadia. Há vários casos de mulheres que continuaram jogando apesar de serem proibidas. Isso ocorreu muito em razão dessa proibição, muitas vezes, não chegar a todas as cidades. As pessoas não tinham conhecimento dessa lei. Então temos vários casos no interior do Rio Grande do Sul que, já nos anos de 1950, tinha time feminino que jogava em várias cidades. Há registros também no interior paulista e no interior de Minas Gerais. O ponto que a gente traz é que, às vezes, esses times são até organizados por empresários homens como é o caso do Araguari, em Minas Gerais, que é bastante conhecido.
O ponto é que quando as mulheres começam a ganhar visibilidade na imprensa, aí soa o alarme de alguém que levanta a questão 'mas é proibido, não pode' e aí acaba qualquer iniciativa. É uma história de resistência das mulheres que sempre quiseram jogar e jogaram, mas não conseguiram desenvolver o seu jogo, não conseguiram ter permanência nessa prática e até ousaram.
A partir dos anos de 1960, é muito comum times formados por vedetes, que são atrizes, mulheres que participam de uma vida artística teatral de televisão, de rádio e daquelas revistas famosas. Tivemos dois times de vedetes, um de vedetes cariocas e outro de vedetes paulistas, que chegaram a jogar aqui no Pacaembu e depois foram jogar em outras cidades. Elas recebiam por esses jogos, eram jogos que tinham público, vendiam ingressos e isso causava um problema para a CND (Conselho Nacional de Desportos) que era quem fiscalizava e proibia. E aí todas as iniciativas que aparecem são interrompidas.
O decreto que cria o CND é mais abrangente com várias diretrizes sobre como tem que ser a organização desportiva no Brasil. Um dos artigos explicitamente proíbe as mulheres de praticarem vários esportes. Ele não cita o futebol, mas o futebol é logo entendido como esse esporte que não pertencia às mulheres. Há até uma regulamentação posterior, em 1965, onde é reafirmado que o futebol é proibido, assim como o futsal, o polo, as lutas, o handebol e vários esportes então considerados violentos, já que para a mulher havia um 'perigo biológico' que poderia afetar a fertilidade e a saúde. Era um argumento que trazia em si uma visão de mulher, um papel de mulher na sociedade que seria representada pelo papel da mãe, exclusivamente. A mulher que não fosse mãe estaria fora desse ideal e de fato era para tirar a mulher desse espaço público. O esporte é um lugar de empoderamento, de aparição pública, de luta, de conquistas e de desafio.
Na documentação reunida para esta exposição, há algumas cartas. A carta escrita por Margarida Adyragram Pereira, em 1940, é o primeiro registro oficial da resistência aqui no Brasil?
Não sei se é o primeiro, mas ele é muito emblemático. Trouxemos para a exposição porque é uma resposta a uma carta que foi publicada em um jornal carioca por um homem pedindo ao presidente que proibisse o futebol feminino. O senhor José Fuzeira pede declaradamente ao presidente da república Getúlio Vargas que acabe com isso, um disparate esportivo. Aí você tem essa resposta muito corajosa da zagueira, que também era presidente de um dos times, e que responde com muita propriedade algo como 'você tem que assistir ao jogo', 'quem é você no mundo esportivo para dizer que mulher não pode jogar?', 'por que é que dizem que futebol feminino é maléfico à sociedade?', 'quem foi que inventou isso?'. É muito interessante ver como o argumento dessa zagueira lá em 1940 é muito parecido com os argumentos que a gente tem até hoje para defender o futebol feminino porque até hoje você vê esse discurso sendo replicado de que falta desenvolver a técnica, de que o jogo não é bom, que são argumentos muito preconceituosos de quem, como a Margarida fala na carta dela, não acompanha o futebol.
Mesmo com os destaques da seleção feminina, ainda há muitas pessoas que se manifestam, principalmente, por meio das redes sociais, contra o futebol feminino com argumentos que se assemelham aos de quem pedia a proibição em 1940. Qual a sua expectativa em relação às próximas décadas com um cenário como esse que a gente ainda vive no País?
Acho que o futebol é só mais um dos casos em que a gente vê esse preconceito. Há uma tendência de isso ser mais discutido na sociedade muito em função das pautas feministas que vêm ressurgindo. Hoje se fala mais abertamente sobre isso e as próprias mulheres contestam esse tipo de argumento. Não acho que isso vai ser algo que vai acabar porque, afinal de contas, é muito estrutural esse pensamento. Se a gente pegar o caso dos preconceitos racial e contra a população LGBT, contra a mulher, isso tudo foi formado culturalmente por muitas décadas e só hoje acho que a gente tem mais movimentos das pessoas que denunciam e se posicionam contra isso.
Acho que o século 19 vai ser um século em que, de fato, as pessoas não vão mais se calar como elas foram caladas nos séculos anteriores. Com relação ao futebol, tem um movimento muito bom acontecendo de mais audiência e de mais apoio que vem não só de mulheres que torcem, mas apoio que vem das marcas e da imprensa. É uma Copa que está com bastante visibilidade, é a que teve mais visibilidade até então, principalmente no Brasil, e a gente espera que isso não acabe. Termina a Copa, mas continua o Campeonato Brasileiro e os campeonatos estaduais. É importante olhar para esse futebol de times e de clubes para que isso de fato se consolide, para que a gente chegue na próxima Copa sabendo o nome das jogadoras todas que são jogadoras que estão nos ainda poucos, mas importantes campeonatos nacionais. É uma história que precisa ser conhecida. Quem gosta de futebol não pode deixar essa história passar em branco.


