A psico-oncologista Maria Luiza Polessa: "Pacientes que têm uma ligação com música, desenho, dança são estimulados a manter contato com esta fonte que é muito renovadora"
A psico-oncologista Maria Luiza Polessa: "Pacientes que têm uma ligação com música, desenho, dança são estimulados a manter contato com esta fonte que é muito renovadora" | Foto: Divulgação

Responsável por acompanhar pacientes diagnosticados com câncer desde a descoberta da doença, a psico-oncologista Maria Luiza de Castro Polessa, membro da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), acredita que a arte pode ser uma grande aliada no combate ao quadro de depressão e ansiedade que pode surgir com a doença. Tanto que encontrou na literatura respostas para as duras perguntas que recebe, desde os pacientes que acabaram de ser impactados pela má notícia até aqueles que atravessam momentos de frustração por não perceberem avanços no tratamento.

Questionada por uma determinada paciente quando ela iria voltar a ser a pessoa que era antes do câncer, Polessa lembrou de uma passagem da obra Baú de Espantos, de Mário Quintana. “E ai dos caminhos que levam de volta ao mesmo lugar!”, respondeu.

A psicóloga também recorreu à literatura quando um homem diagnosticado com câncer de próstata demonstrou que não iria aceitar os impactos da doença em sua vida sexual que ainda nem haviam começado. Neste caso foi ela quem questionou o paciente através dos versos de Manoel de Barros em Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo. “A gente só chega ao fim quando o fim chega! Então pra que atropelar?”

Em evento realizado para a divulgação de uma pesquisa com 200 homens diagnosticados com câncer de próstata a pedido de uma empresa do setor farmacêutico, em São Paulo, Polessa concedeu uma entrevista à FOLHA sobre o trabalho que realiza no consultório e até na casa de alguns pacientes.

- Como a senhora trabalha o envolvimento dos pacientes com a arte para que haja uma capacidade curativa ainda maior?

Como profissional eu tenho um referencial teórico que embasa a minha prática clínica, mas eu não abro mão de um recurso que já demonstrou uma grande função organizadora de sentimentos que é a arte. Muitos pacientes têm uma ligação com música, desenham, participam de coral, dançam e são estimulados a manter o máximo que podem o contato com esta fonte que é muito renovadora sempre que possível - porque muitas vezes as condições físicas não permitem. Como eu sou muito ligada com a literatura, eu tenho mestrado em literatura brasileira pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), gosto muito de escrever e sempre que cabe eu estimulo a escrita. Chego mesmo a oferecer aos pacientes estes blocos, cadernos de capa dura, eu antes trazia de fora do Brasil, agora aqui temos com muita facilidade, e eu entrego para que eles escrevam sobre como estão vivendo a experiência da doença. Tenho publicado em um livro de minha autoria uma frase que é a seguinte: escrever a biografia de uma dor é criativo, curativo e transformador. Sendo que a palavra 'transformador' é escrita com 'dor' entre parênteses. Transforma(dor).

Qual a relação entre o diagnóstico do câncer de próstata e o quadro de depressão?

A relação é grande, por conta das preocupações que este homem começa a ter. Porque o homem tem toda esta questão de prover a família, resolver as questões familiares, sociais, enfim, e quando ele se vê sem esta questão ele fantasia que não tem mais papel para desempenhar e a tendência é deprimir. Daí a importância do acompanhamento psicológico.

A senhora coloca que, algumas vezes, a busca de informações na internet pode atrapalhar o seu trabalho. Por qual motivo?

Pode alarmar, prejudicar. Uma informação de má qualidade prejudica demais, ela afasta este homem ao invés de criar nele um movimento de busca de cuidados com a saúde dele. Ele fica até pior. Um tema que eu acho muito importante é essa relação do médico com a família, essa orientação para que o paciente tenha realmente o direito de saber (do diagnóstico do câncer). O médico sabe que ele tem o direito, mas a família acha que não vai ser bom para ele saber, quando na realidade, quando ele sabe, tem uma outra contribuição nesse processo todo. Existem protocolos para orientar o médico a dar a notícia (da doença) para o paciente e para a família, para que entendam a importância de todos saberem o que está acontecendo. Claro que há responsabilidades e questões que são do profissional, ele que está lá vendo qual a medicação, qual o protocolo e a família não precisa entrar nesta questão. É um universo imenso e que tange todas as áreas da nossa vida.

A senhora usa informações sobre os novos tratamentos como um “alento”? Como fica essa questão do limite de atuação do psicólogo em relação ao médico?

Nós tratamos dentro da psico-oncologia. Ela aborda as questões de ordem emocionais, psicológicas, sociais e culturais dentro do que este paciente atravessa nessa jornada do adoecimento. E nós também entendemos que temos um papel psico-educativo que é o de orientar. Mas nós temos um cuidado muito grande em não entrar no espaço médico, na relação do médico com o paciente e isso é muito visível no processo terminal. Porque muitas vezes a família deste paciente não sabe que ele já está neste processo e não cabe ao profissional psicólogo dar esta informação. Mas nós damos possibilidades, sugestões ('conversa com o seu médico, tenta se informar com ele'), porque às vezes estas opções já estão sendo até orientadas, colocadas em prática. Mas o paciente não sabe que está, muitas vezes, já tendo este atendimento que vai trazer alívio e conforto.

Como é a relação do profissional com os familiares do paciente? Eles podem participar das sessões?

O apoio da família é muito importante e felizmente a maioria pode contar com ele. Há, sem dúvida, os casos em que a família é distante tanto geográfica quando afetivamente. Como profissional o que eu procuro é promover a aproximação começando pelo familiar que o paciente tem maior afinidade. Se este familiar não for o mais adequado para acompanhar o paciente na trajetória da doença, através dele geralmente eu chego àqueles que têm uma maior condição de cumprir este papel, condições físicas, emocionais e até econômicas de corresponder às demandas que o paciente está apresentando. Eu tenho por prática envolver a família convidando-a ao meu consultório ou mesmo quando vou fazer um atendimento a domicílio. Procuro pedir à família que esteja no momento para orientar sobre as mudanças de comportamento, de humor, os quadros de ansiedade, os medos, as perturbações de sono, as alterações de apetite, as dificuldades de relacionamento com os próprios familiares e com a equipe de saúde, tudo o que ocorre diante de uma doença como o câncer, que geralmente afasta este doente do trabalho, do lazer, do convívio social, do exercício da sua sexualidade. E a prática tem me demonstrado que quanto mais juntos família e paciente caminham, muito mais longe eles podem chegar.

Quais os principais motivos que levam pacientes a não procurar o exame de câncer de próstata? O machismo interfere?

Sim, eu acho que as normas de gênero têm um papel enorme. O homem tem vergonha de fazer o exame, tem vergonha de ter uma ereção durante o exame, a posição em que esse exame é feito também remete a uma passividade, então têm toda uma série de questões que faz com que ele negue a observação da mudança do corpo. Porque ele começa a perceber que está com dificuldade de urinar, que está inchando a extremidade, que está sensível nas extremidades mas ele acha que pode ser de uma outra coisa. Quando na realidade nós sabemos, o homem sabe que tem esse risco para ele, é uma possibilidade, como a mulher, ela sabe que pode ter câncer de mama então ela faz um trabalho preventivo. O homem não faz um trabalho preventivo, ele só procura quando está sintomático e mesmo assim segura o sintoma durante muito tempo, começa a fazer a investigação e começa, assim, a distender o prazo entre um exame e outro. Faz um, aí leva um tempo imenso para fazer outro, aí leva mais um tempo imenso para voltar ao médico para levar o resultado, são dificuldades destas normas.

Como a senhora aconselharia a sociedade a tratar a questão da busca pelo diagnóstico da doença?

É preciso falar dos sintomas, onde buscar ajuda, falar da questão da idade. Chegou numa determinada idade, independentemente de ser oncológico, todo paciente que eu recebo com mais de 50 anos eu pergunto se já fez o exame, se já fez o PSA (antígeno prostático específico), se faz controle. Estas informações são fundamentais.

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