De Lerroville para o mundo: londrinense é destaque internacional no TikTok
Única brasileira na Discover List 2026, Alene de Godoy reúne mais de 500 mil seguidores com conteúdos que conectam culinária afetiva, agroecologia, sustentabilidade, geografia e história
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Única brasileira na Discover List 2026, Alene de Godoy reúne mais de 500 mil seguidores com conteúdos que conectam culinária afetiva, agroecologia, sustentabilidade, geografia e história
Fabriccio Lucas* 

É a partir do distrito de Lerroville, na zona rural de Londrina, que o trabalho da londrinense Alene de Godoy, 34 anos, foi reconhecido, e passou a figurar entre criadores de conteúdo, internacionalmente. Professora de Geografia e responsável pelo perfil Afroecológica (@afroecologica), ela foi a única brasileira selecionada para a lista Discover List 2026 do TikTok, que reúne 50 criadores de conteúdo de culinária de diferentes partes do mundo. Com mais de 500 mil seguidores somados entre Instagram e TikTok, Alene construiu uma comunidade em torno de receitas, culinária afetiva, agroecologia, sustentabilidade, geografia e história.
Entrevista completa:
Em entrevista exclusiva à FOLHA, Alene contou que a seleção para a lista do TikTok ajudou a dimensionar o alcance de um trabalho produzido longe dos grandes centros e a partir de sua rotina no campo. “Foi muito importante para mim. Faz tempo que eu trabalho com o TikTok e eu não esperava, não tenho muita dimensão, vivo no meio do mato, muito longe das pessoas. Raramente vejo pessoas muito diferentes no meu dia a dia, então eu não tinha muita noção de até onde podia chegar o meu trabalho. Participar dessa lista, dos 50 criadores de conteúdo de culinária do TikTok, foi uma confirmação daquilo que eu tô fazendo, de que estou em um caminho certo e que é por aí que eu tenho que continuar”, afirmou.
Nascida e criada em Londrina, Alene se formou em Geografia pela UEL (Universidade Estadual de Londrina) e começou a carreira como professora da rede estadual, trabalhando em terra indígena. A mudança de trajetória profissional ocorreu em 2020. Grávida durante a pandemia de Covid-19, ela passou a produzir conteúdo para a internet por meio do Afroecológica. “A partir de então eu fui adaptando o meu conteúdo até chegar no resultado que é esse dos últimos anos, e fui crescendo também nesse meio período”, contou.

Representatividade e agroecologia
A criação do perfil também partiu de uma percepção de Alene sobre quem ocupava os espaços digitais dedicados à agroecologia. Segundo ela, havia pouca representatividade negra entre os produtores de conteúdo que abordavam o assunto. “Quase não existiam pessoas negras que falassem sobre agroecologia na internet, apesar da maior parte da população rural do Brasil ser de pessoas negras”, disse.
Foi nesse espaço que Alene encontrou a identidade do Afroecológica. As receitas passaram a funcionar como ponto de partida para falar de comida brasileira, produção sustentável, alimentos orgânicos, território, memória e história. Parte do conteúdo é construída a partir da própria rotina no distrito de Lerroville e da relação da família com a produção rural.
O crescimento nas redes acompanhou também um período de mudanças pessoais. Durante a pandemia, Alene enfrentou uma depressão pós-parto e relata que a produção dos vídeos ocorreu paralelamente a um processo de reconstrução da própria identidade. “Fiquei muito perdida. Acho que quem é mãe, quem tem filho acaba passando por esse processo, você fica perdida sem saber quem você é de verdade. Então, foi todo um longo processo de transição, junto com os vídeos, e se você pegar os vídeos do começo até hoje, você vai vendo que eu também fui me encontrando nesse meio tempo do que eu queria falar e fazer.”

Da internet para uma marca própria
Com a comunidade formada desde 2020 e o reconhecimento alcançado nas plataformas digitais, Alene agora planeja transformar parte do trabalho desenvolvido em Lerroville em produtos próprios. “Eu quero muito terminar minha casa. Estamos em uma eterna reforma, então quero terminar essa reforma e conseguir criar minha filha de forma muito respeitosa, que a gente preza. E, profissionalmente, quero daqui para frente focar e montar uma marca de produtos que a gente faz aqui, tanto produtos que eu faço manuais quanto também dos nossos produtos da roça, que a gente produz”, afirmou.
O projeto amplia uma trajetória que começou durante a pandemia e encontrou nas redes sociais um espaço para aproximar culinária, sustentabilidade, identidade e conhecimento. Produzindo conteúdo a partir da zona rural de Londrina, Alene agora vê o trabalho desenvolvido em Lerroville alcançar uma audiência que ultrapassou as fronteiras do Brasil.


