Wenceslau Braz, com W e com Z
Londrina -Minha cidade é só mais uma dessas cidadezinhas do interior do Paraná que os mapas fazem questão de esconder. Quando mostram, colocam um V no começo ou S no fim. Dizem que são as novas normas ortográficas da língua portuguesa. "O topônimo deveria ser grafado como Venceslau Brás", impõe a duvidosa Wikipédia. Balela. Nome é nome não varia conforme tempo ou espaço. O nono presidente do Brasil foi o mineiro Wenceslau Braz e não consta que ele tenha ido ao cartório mudar o nome nos seus 98 anos de vida.

Ela fica lá no Norte Pioneiro, já na divisa com os Campos Gerais. Não tem nenhum ponto turístico famoso como o belo Salto Cavalcanti, da vizinha Tomazina, ou um prédio de dez andares como Siqueira Campos. A referência vertical da cidade ainda é o Santa Maria, hotel de três andares. A despeito dos atrativos das cidades vizinhas, os brazenses se orgulham de ainda manter algumas sedes regionais como a Comarca Judiciária, Núcleo de Educação, Companhia da Polícia Militar. As ruas largas com o comércio que atrai moradores da região são motivo de orgulho.
As senhoras passam o dia a varrer as pequenas folhas das sibipirunas que não resistem à força do vento. O centro é espremido pelo relevo acidentado, de forma que a cidade tem de crescer nos extremos. No sentido norte-sul, são quatro quilômetros de cidade, do tímido parque industrial na saída para Siqueira Campos até a Faculdade de Ciências de Wenceslau Braz (Facibra). Quatro quilômetros que parecem mil ao separar educação e emprego. Ao lado da saúde, a falta de vagas de trabalho é a maior deficiência da cidade. Dos que concluem os estudos, poucos são os que ficam.
Sem formosura arquitetônica ou natural, o coração da cidade é povo. O lado bom de Wenceslau está na simplicidade. No florir do ipê roxo em frente ao Correio, na névoa que transforma o horizonte em mar, nos tapetes verdes das lavouras, nos casais de namorados na escadaria do Sebastião Paraná, no semblante de paz das senhoras que deixam a missa, até no singelo vibrar dos galos de ferro ao dobrar dos sinos da Matriz.
Neste sábado, essa minha cidade, que é só mais uma dessas cidadezinhas do interior do Paraná, completa 81 anos. Comemoram os paranaenses, mineiros, paulistas, portugueses, japoneses, italianos, árabes, ucranianos, poloneses e todos os outros povos que construíram esta terra. Ser apenas mais uma em nada desmerece a importância desta paragem do antigo Ramal do Paranapanema. Talvez, este seja o segredo para a cidade retornar aos trilhos do desenvolvimento: ser apenas uma; não duas, rachada, dividida.
Celso Felizardo é jornalista na FOLHA





